12 Jun 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
Novas do Reino

 

É neste meu suave falar com as coisas que amenizo as dores, os  sofridos contratempos, as inesperadas ocorrências. Parte do corpo a ficar bronzeado com as caminhadas matinais. Caminhar a ouvir o mar e a ver a ilha a movimentar-se. Sim, eu quero acreditar que as ilhas navegam.  As gaivotas a lutarem por lugares estratégicos. Os seus poleiros de sonho. Rios e ribeiros que já não desaguam nesta terra sem chuva. Uma longa secura.

Vão crescendo as verdes árvores nos vasos de um gritante verde. Vasos enormes que nos chamam para o encanto. Coisas simples que embelezam os caminhos da vida.

As palmeiras, o imenso areal, os aparelhos de ginástica onde muitos e muitas formatam o corpo. As luvas para agarrar os ferros. Os acrobáticos saltos. Tudo vejo da minha querida esplanada. A areia continua a incomodar-me.

Vejo as notícias da morte e da guerra instalada em canais que  falam outra língua. Vejo os bancos a falirem e a serem comprados por um euro e oiça a velha e repetida balela: (isto não vai custar nada aos contribuintes!)

Dizem estas coisas sem se rirem. Ainda há pouco tempo o ministro da economia tinha afirmado que o tal banco estava sólido. Onde é que eu já ouvi isto? Que cartilha é esta?

Vão falando os sem vergonha. Enchem-se sempre os mesmos, pagam os do costume.  Vocês que estão aí a ler isto digam-me por favor, quando é que isto acaba?

Será isto o fim de tudo. O tal fim do mundo que  os mais velhos diziam ser no ano 2000? Estou tão farto. Começa-me a doer o corpo todo de tanta vergastada.

Mas voltemos ao “Mare Nostrum”. Lá está na sua cor de muitas cores. Um encanto que querem transformar em cemitério. Uma baleia apareceu a saltar aqui perto. Acrobáticas piruetas. Ainda há esperança quando estas surpresas acontecem. São lindos estes intervalos na rotina. Tudo fotografado no jornal da região. “Uma beleza de tirar fôlego”, dizia o título. Jornal que leio todos os dias. Um café, uma água com gás e dois jornais. Por vezes uma tostada com azeite e tomate, um sumo de laranja natural, um café e os dois jornais na mesma. Hábitos que vou mudar assim que aí chegar. Em cada lugar um modo de viver. Aprender a ser mais um no meio deles, sem nunca deixar de Ser eu.

A alegria enorme de saber o sabor deste sal. Vultos que saem do mar a escorrer consolos. A temperatura da água. A doce fala de uma mulher numa língua estranha. Como é possível que nos encante o que não percebemos? A ternura não tem idioma, é um estrelado encanto que se vê em alguém. Assim vou caminhando por aqui. Assim, por aqui, vou estando. Leio, escrevo, penso, falo e beijo e sou beijado. Que mais pode um ser humano desejar?

Ter muita coisa, pode ser demais. Tudo o que é demasiado faz mal. Conseguir saber das coisas a devida conta. Um árduo caminho. Uma estrada que temos que percorrer. Ter apenas o suficiente é difícil para o ser humano. Vamos tentar.

Vou tomar um café e ler o jornal. Outro jornal. Tentar aprender. Tentar saber.

A Isaurinda diz que eu devia aproveitar estar aqui para descansar mais deste frenesi da escrita e da leitura.

Todos vocês sabem como é sábia esta mulher!

Ouço-a. Digo-lhe que sim.

Ela só me responde:

«Depois não digas que eu não te avisei.»

Como eu a sinto pelo telefone. Adoro-a.

Jorge C Ferreira Jun/2017(125)(Reino de Valência

 

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