19 Jun 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
Novas do Reino II

 

Como falar do verde imenso. Das Palmeiras. Do esquilo que este ano ainda não apareceu. Dos pássaros pequenos e espertos que vêm comer as migalhas de pão que espalho na varanda. Do mar. Da ilha. Do sem fim. Do lado de lá que não enxergo.

Tudo isto vejo pela manhã quando chego à varanda. Coisa que faço pelas 8:30 de aqui. No hotel ao lado, as pessoas começam a chegar às varandas. Um hotel que já foi de época e agora deixou de ser. Um hotel de três andares e quatro estrelas.

Há ainda aqui uma grande consternação pelo jovem que foi assassinado no atentado de Londres. Este povo vive estas coisas de forma muito intensa.

Abro a televisão e vejo uma torre enorme a arder em Londres. Um horror. Tanto andar para quê? Um inferno que tento apagar da memória e não consigo. Que se terá passado? Habitação social. Coisas do Estado geridas por privados. Sempre os mais débeis a sofrer.

Digo isto e penso num projecto que existe para construir, numa parte do terreno do hotel que falei, uma torre de trinta e dois andares com apartamentos de luxo. Logo aqui, onde ainda se conserva um  certo equilíbrio, uma certa harmonia, e as vivendas continuam a preencher a marginal.

Há um movimento a tentar impedir tal coisa. Estou com eles. Já  há torres que cheguem. Vamos reaprender a viver. Vamos buscar o conforto da simplicidade.

Uma moção de censura nas cortes. Uma moção que se sabia antecipadamente derrotada. A esquerda não se entende. A direita continua a governar. Apesar da corrupção, apesar dos vários políticos do PP presos. O governo continua. Passeia-se impune como se nada fosse com ele.

Um PSOE recém saído de uma luta interna imensa. Alguma inconstância dos partidos emergentes, saídos das lutas de rua, também ajuda a este estado de coisas.

De política já chega.

Já se prepara o S. João. As “Hogueras”. As rainhas da festa vão sendo escolhidas. Os trajes vão sendo alindados. O fogo vai começar. As marchas e as procissões também. Uma festa contínua até ao dia em que o fogo redentor tudo faz arder. As esculturas feitas em cinza. A gritaria do povo. As ruas cheias de gente. Na véspera janta-se na praia e à meia noite saltam-se as ondas, vai-se ao banho e atiram-se moedas, flores e laranjas ao mar. Lá espero estar. Um mergulho que não costumo perder.

Costumo dizer que não venho para aqui passar férias. Venho passar uma temporada. Venho estar com os  meus outros amigos.

Um modo de estar na vida. Não necessito de luxos nem de grandes festanças. Jantamos com os amigos. Passeamos o essencial. Vamos às compras como os demais. Tapeamos e vamos envelhecendo. São muitos anos na mesma rua, no mesmo apartamento simples e espartano, mas com uma varanda maravilhosa. Já jantaram nesta varanda dezenas de pessoas. Portugueses, ingleses, espanhóis, alemães. É uma varanda para ser vivida, usada e abusada.

É desde aqui, deste Reino que pode ser inventado, que vos vou falando. Uma voz que tento que vos soe serena. Uma voz das elevadas temperaturas. Uma voz que adivinha e sonha com os desertos do outro lado do mar.

A Isaurinda, que nunca percebeu porque gosto tanto dos desertos, ri-se quando falo disso.

«Um dia acabas perdido num sítio desses. Ninguém te vai conseguir encontrar. Já tens idade para ter juízo.»

Fala da Isaurinda e preocupação de quem me gosta.

«Está descansada. Este ano vou ficar sempre por aqui.»

Respondo.

«É favor!»

Assim termina Isaurinda. Assim terminamos.

Jorge C Ferreira Jun/2017(126)(Reino de Valência

 

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