07 Ago 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
Ilusões

 

A Ilusão. Os ilusionistas. Os truques. A mulher serrada ao meio. Os lenços que não param de ser cuspidos. As mãos esguias. O fato preto escolhido com rigor. Um palco que cheira a mistério. Tudo isto após a morte da mulher barbuda.

Um faquir beija os pregos com o corpo. Um malabarista larga e apanha malabares. Um homem de turbante cospe fogo. O palhaço continua triste. Um espectáculo de todas as artes, de todos os feitiços. Bruxas encostam as suas vassouras de voar e assistem a tudo. Dizem que foram vistos restos de animais sacrificados. Quando o dia começou a clarear, feita a última dança, teve lugar o derradeiro truque e apagou-se a fogueira. As bruxas pegaram nas vassouras e voaram. Os artistas voltaram a casa. A mulher serrada apareceu inteira.

Isto pode ter acontecido ou pode ter sido um sonho. Levantei-me cansado e numa dúvida que não conseguia resolver.

Acendi a televisão num canal de notícias, estava a dar um programa sobre futebol. Não falavam sobre algum jogo que tivesse acontecido. Falavam sobre outras jogadas. Vou saltitando de canal e nada do que vejo me agrada. Crimes, violência, mortos e feridos. Incêndios. Labaredas. Floresta e casas queimadas. Entrevistas a pessoas em pânico e uma falsa de senso que cansa e fere a nossa sensibilidade. De repente perora uma sumidade que sabe de tudo e toca todos os instrumentos. Se fosse músico seria uma orquestra. Uma voz que estamos fartos de ouvir. Os palpites do costume. As apostas falhadas. Um cavalo cansado. Um jogo viciado.

É quando nos damos conta da similitude de situações. Afinal tudo não passa de ilusão. Tudo são truques. Cenários inventados. Falsas ilusões. Há outras bruxas que andam de carro com “chauffeur” e voam na classe executiva dos aviões. Há verdadeiras pontes aéreas entre cidades europeias. Os palradores continuam a servir os seus donos. São pagos de várias maneiras. O servilismo é sempre reconhecido e bem recompensado.

Quando vem a noite, a noite alta, o ilusório palco enche-se de novo. Voltam os artistas do costume. A mulher barbuda ressuscitou. Uma bruxa deita cartas e lê uma bola de cristal. Uma cabra equilibra-se, as quatro patas em cima de um tamborete mínimo. Uma menina com maillot arrendado dobra-se sobre si mesma e vai buscar um lenço, com a boca, a um lugar inacessível. Ouve-se o rufar de uma tarola e o assobiar de uma flauta.  Saltam cobras de uma mala muito antiga. Sucedem-se as fotos.

Na televisão aparecem números e números de telefone para ligar. Há quem gaste muito dinheiro a ver se mata a desgraça. Um engano, uma vergonha autorizada. Toma lá mil euros em cartão. A falsa sorte grande.

O tipo dos palpites não se cala. Não sei que raio de contrato tem. O tipo sabe de tudo. Uma verdadeira enciclopédia. Filtramos a coisa. Tanta falsidade.

As bruxas não param de voar, as vassouras em alta rotação, a mulher barbuda volta a morrer de morte súbita. A mulher serrada volta a aparecer inteira. O palrador continua a falar. Os programas de futebol e de crimes sucedem-se.

Apago a televisão.

«Olha, fizeste uma coisa esperta. Estava farta dessa barulheira. Tu estás bem? Que raio de estória, por onde andaste? Que coisa mais maluca!»

Voz da Isaurinda.

«Sabes, estou a tentar descrever o mundo ilusório que nos tentam mostrar. Comparar os vários espectáculos da vida.»

Respondo.

«Não estás bem, não.»

De novo Isaurinda e vai, o pano na mão.

Jorge C Ferreira Ago/2017(133)

 

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