10 Jul 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
Despedida do Reino

 

Este é o último texto desta temporada no Reino. Desde trinta de Abril que por aqui ando. Foi o tempo de estar com estes amigos que sempre me aguardam na minha rua, na minha esplanada. Todos sabem onde moro. Todos conhecem a minha varanda. Já estou com saudades deles. Dos abraços, dos beijos, das ternuras. Sou um homem  de afectos. Afectos e textos escritos é o que posso oferecer. Pouco mais tenho. Horroriza-me ser proprietário. Ser proprietário de algo é coisa que só dá chatices. Muitos dizem que sou parvo quando me quero desfazer do que ainda tenho. Para mim as coisas são para usufruir e não para deter. Que querem, sou assim e já não devo mudar. Deixem-me ser um parvo feliz!

Esta estada por aqui tem duas fases. A fase em que estamos sozinhos, eu e a minha mulher, e a fase em que chega o meu neto. Com ele todos os ritmos se alteram, embora ele aprecie muito os nossos tempos. É um enorme companheiro. Sabemos que ele tem necessidades que nós não temos. Tê-lo connosco é uma dádiva. O melhor de tudo é saber que ele gosta de cá estar. Por vezes fazemos esforços a que não estamos habituados, mas tudo vale a pena quando recebemos de volta aquele sorriso iluminado.

Muita coisa aconteceu durante a minha estadia por aqui. Muitas alegrias e algumas, não direi tristezas, mas desilusões que me deixaram triste. Há pessoas que teimam em nos surpreender negativamente e, para nós, que acreditamos no outro, torna-se difícil digerir estas situações. Parecem facas aguçadas a espetarem-se nas partes mais frágeis do corpo. As costuras do meu corpo esfaqueado dão sinal. São dores, por vezes, intensas.

Quando venho para aqui costumo-me desligar o mais possível do que se passa no meu país. Um país onde me coube nascer. Não sei se por engano da cegonha ou se por outro modo de sorte. Desta vez as notícias daí surgiram nas primeiras páginas e, pelos piores motivos, entraram-me casa adentro. Tragédias, fogos e mortos, roubos inexplicáveis, enfim, um sem número de coisas sem nexo.

(Estão guardadas no meu bloco de coisas a tratar. Não estão esquecidas).

A praia fica a cinquenta metros de casa. Não é um lugar que frequente muito. Agora vou mais para acompanhar o meu neto a desbravar ondas. Por vezes, um jogo de futebol. O areal é muito grande e não incomodamos ninguém. Ele sabe até onde eu posso ir. Quando lhe digo que é o último remate, aceita pacificamente.

Vou sentir falta de muita coisa. Desta vida de muita liberdade. (É diferente estar fora do ramerrame habitual). Desta rua com os seus vasos enormes de um verde que nos chama de tão intenso. Vou ter saudades dos amigos e da esplanada de todas as visões. Da Ilha. Do gigante Roldán. Dos barcos. Dos peixes que me acompanham no banho de mar.

Desta vez fui visitar o hospital e estava bem de saúde. Um amigo teve um enfarte e já anda aí feliz da vida. Não sei o que ainda me pode acontecer. Estou calmo. O que acontecer se verá.

«Olha que eu estava a ver que, desta vez, ficavas mesmo por aí?»

Fala da Isaurinda.

«Eu tinha-te dito quando ia, e assim farei.»

Respondo.

«Eu sei, mas são saudades de embirrar contigo ao vivo»

Assim se despede. Já sei o que me espera.

Para os amigos do Reino um “hasta siempre” .

Jorge C Ferreira Jul/2017(129)(Reino de Valência

 

 

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