17 ABR 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
“Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!”

 

O corpo é uma dor inteira. Tudo me aperta. A roupa parece não ser minha. Apertam-me os sapatos. Os atacadores, o cinto, os suspensórios, tudo parece um conluio para eu deixar de respirar.

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!

Lembro-me da polícia, dos cães polícias, dos cassetetes, dos carros de água, da polícia a cavalo, dos cavalos a espumarem medos, dos guardas a espumarem raivas. Que tempos aqueles. Que opressão tão cega, tão animal. Grande a  minha dificuldade em viver!

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!

Leis e mais leis. Leis que sufocam a liberdade. Leis feitas à medida dos poderosos pelos seus empregados, empregados que nós pagamos. Os grandes escritórios de advogados. Mais uma liberdade suprimida. Mais uma razão inventada. Uma asfixia!

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!

Um novo imposto. Uma nova maneira de cobrar impostos. Assaltos suportados por leis. O verde imposto. O azul, o vermelho. O imposto corado de vergonha. A falta de vergonha. O peito apertado. A condenação antes do tempo.  Quase não consigo respirar!

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar.

A vida a andar para trás. Uma corda em vez do cinto. As calças a cair. Um caixote do lixo e um gancho. Os restos do que não sobra. Um recuo civilizacional. A caridadezinha. Uma sopa dos pobres em cada bairro. O pobrezinho da senhora dona. O asmático grito!

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!

O trabalho sem direitos. Os contractos rasgados. O emprego feito favor. O favor a roçar a escravidão. O pagamento por favor. A falta de trabalho. O desemprego mascarado. Uma vergonha autorizada. O coração a falhar!

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!

Guerras e mais guerras. Divisões inventadas. As armas a serem vendidas. As vidas a serem dizimadas. As cidades só ruínas.  As guerras feitas fora das fronteiras dos negociantes de armas. Explode um certo Mundo. O Mundo que já não sabemos onde fica!

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!

As novas pestes. As doenças incontroláveis. Mortais vírus proliferam em pobre gente. Bactérias incontroláveis. Novas infecções. Novas mortes. Outras maneiras de morrer. As vacinas que tardam enquanto a doença não chega à porta de quem paga a investigação. Já não suporto tanta falta de ar!

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!

A intolerância das religiões. A razão a escapar-se em altares improvisados. Os falsos deuses. A luz que não nos chega. Um Papa que veio do “fim do Mundo”. Uma esperança que tarda. Os cardeais a tentarem encolher as barrigas. Eu com dificuldade em respirar!

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!

A droga. Um negócio de milhões. Da produção à venda um preço que se multiplica não sei quantas vezes. Os passadores. Os que morrem quando as bolotas explodem dentro de si. Países que são entrepostos do narcotráfico. Generais engalanados. Presidentes fantoches. Mortos com as veias envenenadas. Difícil aceitar!

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!

Os ignorantes que mandam no Mundo. Os que trocam os países que são bombardeados por sua ordem. A boçal forma de estar. Uma crista de galo loura. Um cansaço que quase mata. A vontade imensa de resistir a estes bonecos de feira. Respirar no tempo certo.

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!

Os bancos que vamos pagando. Os falsos banqueiros que falsearam contas e resultados, o dinheiro em paraísos fiscais. Tudo à solta. Passeiam-se em bons carros com “chauffeur”, vivem em palácios e riem-se na nossa cara e ainda têm tempo de antena nas televisões. A nossa respiração a falhar.

Deixem-me respirar! Deixem-me respirar!

«Olha tu respira fundo que parece que estás a ficar com falta de ar.»

Fala da Isaurinda.

«São coisas a mais, minha querida. Custa a aguentar.»

Respondo.

«Eu sei, também sinto. Mas acho que há uma hora para tudo e tu descansa-te.»

Diz de novo Isaurinda e vai, o pano na mão.

Jorge C Ferreira Abr/2017(117)

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