13 MAR 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
“As Negras Quintas-Feiras e outras cenas”

 

Sou daqui. Sou de Lisboa. Sou alfacinha. Nascido na freguesia de S. Jorge de Arroios. Nasci em casa. Sou filho de um parto com dor. Custei a nascer, dizem.

Neste País, quase acidente, vivo. Se lhe tivesse que dar uma cor pintava-o de azul. É estranho este País que me tocou, mas gosto dele. Um País de chicos espertos. De contrabandistas que subiram de nível e muitos são, agora,  chamados de banqueiros. Um País onde muita coisa se resolveu à cabeçada e onde, ainda hoje, damos cabeçadas nas paredes e na vida.

Fomos negreiros. Dizem que somos um país de marinheiros, muitos à força, gente de partir, gente que inventou a palavra SAUDADE. Gente bonita de tão simples. Gente que faz tanto com tão pouco.

Temos também casos estranhos com estranhas figuras ou figurões, como acharem melhor, deixo ao vosso critério. Fomos conhecidos pelos fenómenos do Entroncamento. Obra notável de um correspondente de jornal. Agora a coisa subiu de notoriedade.

Um senhor que desempenhou cargos importantes nesta nação e, a quem o povo, deu o cognome de  “a múmia”, decidiu escrever um livro com um título sugestivo. Nesse livro conta conversas que teve com outro sujeito que na altura também desempenhava um cargo importante, um ex-presidiário a contas com a justiça. Os dois zangaram-se. Isso para nós não tinha interesse nenhum. O pior foi a chafurdice que tiveram de aturar, os que ainda ligam a televisão, com os dois a botarem faladura.

Falou o que apelidam de “múmia” e depois respondeu o “ex-presidiário” e nós a aturarmos a estucha. O que este povo de gente simples consegue aturar…Tudo em canais diferentes. Em registos diferentes e nós sem ouvirmos nada. Nós fartos de patranhas.

“As Negras Quintas-Feiras e outras cenas” em discussão!

Nunca as falsas elites tinham descido tão baixo.

Tudo foi notícia de abertura durante um tempo. Depois passou. Tudo agora passa muito rápido. Falam sempre os do costume. Os que nós já sabemos o que vão dizer. Manda a retórica. Manda a retórica, por vezes pobre, muito pobre.

No entanto este País azul tem uma língua linda. Tem poetas e gente que voa com e nas palavras que junta e inventa. Gente com asas. Lindos vultos que passam por nós sem os vermos. Ouvimos um leve sussurro. A um canto, uma mulher toda despida lê um verso e repete-o mil vezes. Chora. Chora lágrimas de cristal puro. Lágrimas nossas, lágrimas de um fado que chora.

A figura que o povo apelida de “Múmia” e o “Ex-presidiário” continuam a discutir. Ninguém já os ouve.

A falência de “As Negras Quintas-feiras e outras cenas”!

Um escritor só, num quarto sem janelas, escreve de forma alucinada. Depois lê o que escreveu e não sabe como escreveu aquilo. O milagre da escrita a acontecer. Acontece na nossa língua. Acontece no nosso país. Acontece vestido de azul.

Ninguém dá tempo de antena a quem pensa e faz pensar. Eles sabem que é um perigo. Um perigo que não querem correr. É então que se baseiam em estudos de mercado que encomendam a uma empresa que também lhes pertence. Os resultados são os que eles queriam que fossem e tudo continua na mesma.

“As Negras Quintas-Feiras e outras cenas” em discussão!

Nunca as falsas elites tinham descido tão baixo.

Viva o País azul! Vivam os Poetas, os Escritores e todos os artistas! Viva a gente com asas!

Jorge C Ferreira Mar/2017(112)

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