15 MAI 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
As Meninas da Nigéria

 

Muita vida escrita a sangue. Muito sangue nas camas esquecidas. Morrer e matar. Os sacrificados. As imolações e um nunca mais acabar de torturas. As mulheres que são assassinadas. As inacreditáveis barbaridades. Os homens que se maltratam a eles próprios sem perceberem o porquê. Os homens que também são maltratados. Quando vai acabar esta senha de raivas incontidas?

As minha meninas da Nigéria, as meninas que ninguém encontrava ou ninguém fazia por encontrar. As que chegaram estropiadas fisicamente, as que foram Mães fruto das violações. As minhas lindas meninas que vou amar para sempre. Como virão as suas mentes? Que horrores bailarão dentro delas?

As minhas meninas da Nigéria! Negras e lindas. Os vestidos coloridos.

Isto passou-se num País africano, em guerra permanente, com bandos de assassinos à solta. Mas esta guerra com mortes infindáveis passa-se também na Europa, aqui junto a nós. As estatísticas são a nossa vergonha. Gente que não respeita a liberdade do outro.

Tantos satélites, tanto “drone”, tanto controlo remoto, tanta espionagem, tanta merda e tanto tempo foi necessário para encontrarem as minhas meninas da Nigéria. Tanta violência permitida, tanta ignomínia. Tanta a vergonha que sinto!

Vou-lhe chamar Rosa. Podia chamar-lhe outro nome. Podia dar-lhe outro corpo e outra cara. Mas fica Rosa e fica assim. O cabelo aloirado apanhado, um rabo de cavalo, um elástico vermelho. A cara, os braços e as pernas marcadas pela violência. Houve um animal que não aceitou que ela quisesse ser livre. Diz que quando ele foi buscar a faca, fugiu. Não fosse isso e não estaria aqui para contar. Os médicos tomam nota das mazelas. Fica tudo num relatório. Tudo irá para a justiça, assim a justiça tenha tempo. Rosa está dorida. Diz que lhe dói tudo, mas a dor maior é a que sente dentro dela. Rosa tem medo até da sua sombra. Tem medo de viver na sua casa. Quantos nomes podias ter, Rosa? Quantas vidas podias ser?

As minhas meninas negras da Nigéria. As minha meninas lindas, as minhas coloridas mulheres.

Esta urgência das urgências que era tê-las libertado. Esse tempo que se arrastou e com ele trouxe danos irreversíveis. Essa dura vida. Esse petróleo que é roubado. Ouro negro lhe chamam. Ouro negro são.

As minhas meninas da Nigéria, as minhas negras lindas e coloridas meninas. Luzes que me iluminam. Meninas minhas.

Tanta mato percorrido. Tanto ultraje acontecido. Tantas noites sem luz. Um homem a quem não viam a cara, sentiam o corpo e o cheiro. Choravam os horrores. As minhas meninas lindas. Meninas negras e coloridas. Meninas África.

Rosa voltou ao hospital. Mais marcas, mais queixas. Mais relatórios médicos, mais notas e advertências. Um olho vermelho de sangue. O perigo da cegueira. A cegueira de um animal. Tudo por resolver. Rosa decide ir para uma casa abrigo, ser ela a recluir-se.

Uma injustiça que a lenta e fraca justiça custa a resolver. Irá Rosa salvar-se?

Falei da Rosa. Mas podia falar do António, porque o contrário também acontece. É mais raro, mas acontece. Muitas vezes, por vergonha, não é relatado pelas vítimas. Ainda a triste lenda da superioridade masculina. Quantos Antónios e quantas Rosas já morreram este ano?

Mas, as minhas meninas lindas, negras, coloridas da Nigéria? Como estarão? Quem vai cuidar delas? Da sua saúde mental? Meninas lindas, meninas minhas, que vergonha eu tenho do que vos aconteceu. Que impotente me sinto neste mundo doente.

Quando falei de tudo isto à Isaurinda, pelo telefone, percebi o seu choro atrapalhado. Mulher negra do chão duro, do fogo intenso, mulher sofrida, mulher de luta, a Isaurinda tem, apesar de tudo, os sentimentos à flor da pele.

Jorge C Ferreira Mai/2017(121)(Reino de Valência)

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