10 ABR 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
“As guerras, as bombas”

 

Não param de cair bombas sobre os destroços das cidades sitiadas. Gases letais sufocam tudo o que atingem. Crianças agonizam numa morte dolorosa. Cai mais outra bomba. Cai, agora, onde tentam salvar os atingidos do bombardeamento anterior.

Há cidades e vidas destruídas para sempre. Cidades que, já me disseram, eram lindas. Homens, mulheres e crianças. Famílias inteiras desfeitas. Uma criança abandonada que chora. Outra bomba.

Este negócio da morte que me mete nojo. Esta gente que manda matar. Os que não são capazes de dizer não. De dizer que não vão carregar em mais nenhum botão de destruição. As armas químicas. A vergonha imensa. A vergonha que sinto. Um sufoco que também me atinge.

Palhaços, bonecos de feira, gente sem princípios, gente paga por bandidos e criminosos. Gente eleita que não é capaz de pôr fim ao que desencadeou. Nós, os pobres cidadãos, os amantes da paz a sofrermos com tudo isto. Eles entre reuniões e jantares que nada resolvem.

Mais uma criança morre asfixiada. Mais uma bomba cai noutra cidade. Mais famílias são destroçadas. Mais ruínas nascem das cidades que não conheci. Mais uma criança só. Um choro que nos faz chorar. Ouve-se o barulho de outro avião. Máquinas de guerra. Merdas de matar.

A cobardia, os povos indefesos, as lutas por poderes sem sentido. Gente que só olha para o seu umbigo e tem uma legião de nababos bem pagos a engordarem contas em paraísos fiscais. Assassinos de países que dizem querer a paz vendem as armas com o beneplácito de governantes de quem são patrões.

Mais uma criança com o corpo a arder. Outra arma. Outros assassinos. Os mesmos afinal. Mais um prédio que se desmorona. Salva-se uma outra criança que chora esperando o auxílio de alguém

O twiter, o facebook, as petições, os parlamentos, as manifestações, as falsas esperanças. O enorme polvo. Os enormes negócios. A contracorrente. As guerras, sempre as guerras. Não são grandes guerras. São guerras enormes.

Tanta gente sem casa, sem país, sem estrada, sem nada. Gente perdida num mundo hostil. Gente de que outra gente desconfia. Terreno fértil para os falsos profetas. Para as falsas promessas. Para o culto do ódio. Assim se desenvolvem outras guerras. Choram as crianças que nunca mais tiveram direito ao leite materno.

Tanta gente mutilada. Tanta gente que se esqueceu de tudo  o que era. Gente que vagueia por sítios que desconhece e que anda em círculos, sem parar. Gente que já se esqueceu de si. Duas crianças choram de mão dada. Não têm ninguém.

Nababos passeiam os corpos tratados por passadeiras vermelhas. Gastam o dinheiro ganho com a venda das armas. Florescem ilhas esquecidas. Reúne-se um Conselho de Segurança. É ditada a insegurança. Os vetos dos senhores do mundo. A vergonha certificada.

Quantas mais crianças, mulheres e homens vão ser assassinados por asfixia?

«Tudo o que contas é tão triste. Nem calculas o que me custa ver o sofrimento destas pessoas, então as crianças!»

Voz de Isaurinda.

«Eu sei. Eu conheço a tua sensibilidade perante estas coisas. Também tu aqui chegaste um dia vinda de uma terra outra. Embora sem guerra.»

Respondo.

«Sim, tens razão. Não tínhamos guerra, mas sofremos muitas dificuldades. Ainda tenho as solas dos pés duras de tanto andar descalça.»

De novo Isaurinda.

«Eu sei. Sei da tua luta também cá. Do teu esforço imenso para educares as tuas meninas. És uma heroína.»

Respondo de novo.

«Deixa-te disso. Já está e olha, continuo a achar que andares sempre a remexer nestas coisas te faz mal. Tu sabes contar coisas tão bonitas!»

Isaurinda, quem havia de ser. Assim disse e assim partiu, o pano na mão.

Jorge C Ferreira Abr/2017(116)

 

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