22 MAI 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
Amar pelos dois

 

Tudo parece simples. Todos sabemos, no entanto, que o simples é o mais difícil de fazer. Contemos então:

Alguém pediu à  Luísa para fazer uma canção. Uma coisa que ela sabe fazer bem e disso já tem dado provas. Ela indicou uma pessoa para cantar. Escolheu o irmão que sabe do ofício da música e a ama como ela. O resultado foi surpreendente. Uma melodia maravilhosa e uma interpretação a condizer. O rapaz parecia que pedia licença para cantar:

«venho aqui cantar e vou-me já embora.»

Quando canta a sua voz vem de dentro, percebe-se. Depois é toda uma quantidade de gestos e mímica que encantam. Tudo aliado a uma fragilidade que contagia.

Ganharam no burgo. Levantou-se a celeuma do costume. As quintas e os quarteirões. Os condes e os barões. Os  que se julgam donos das coisas. Tudo ultrapassaram e, depressa, se tornaram os meninos adorados de muita, muita gente.

Depois era ir lá fora. Ao festival da “pantomina”, onde as grandes trutas combinam destinos. Onde os  falsos sábios dizem haver fórmulas secretas para se ganhar. Foram, chegaram com a mesma humildade com que partiram. Fizeram o seu trabalho. Ele cantou. Ela sempre junto dele. Foram genuínos, iguais ao que sempre foram, não cederam uma nota. O resultado foi surpreendente.

Uma vitória arrasadora.

Tudo isto foi verdade e ocorreu mais ou menos assim. Tudo foi muito bonito e muito bom para a nossa autoestima. Mas, de tudo isto, devemos tirar conclusões. Conclusões importantes para o nosso futuro colectivo.

É pelo diferente que nos devemos afirmar. É pela nossa capacidade de sonhar e ser únicos que temos de reconquistar o Mundo. Naquela votação, quando se davam doze pontos a Portugal, (e tantos deram), estavam a premiar isso tudo que acabo de dizer. Ficámos a saber, se acaso tivéssemos alguma dúvida, que há muita gente farta do óbvio, do já formatado, do inevitável. Há muita gente que continua a amar o belo, o simples, o genuíno.

É só uma canção, dirão. Verdade, mas é muito mais do que isso. É uma lança espetada num chão a semear. Foram sopros de amor que enviámos ao Mundo.

Temos de fazer muitas coisas que os outros também fazem, temos. Mas demos mais valor ao nosso poder criativo. À ternura que transportamos connosco, à nossa capacidade de adaptação, à nossa facilidade de falar e amar o diferente.

Houve quem nos enchesse de betão até morrermos quase emparedados. Tivemos loucos que pensavam que tinham o mundo na mão e caíram em desgraça. Os nossos fatos são os que o Salvador e a Luísa usam. Não aquelas horrorosas encadernações dos faz de conta, dos falsos engenheiros e doutores. A nossa linguagem é a dos manos Sobral e de muitos outros que fazem da criação o seu duro ofício. Só assim nos afirmaremos no mundo.

Temos também de agradecer à direcção da RTP por ter dado este passo. Ao júri por ter escolhido esta mensagem. Que isto também lhe sirva para que a sua programação se afirme pela diferença e não pelos formatos pré-fabricados. Que sejam arrojados. Que não tenham medo de arriscar.

Tenho de terminar com uma nota: a Isaurinda que, como sabem, é da Ilha do Fogo, sempre adorou este menino. Assim o chamou e continua a chamar. Depois do festival, quando lhe telefonei, atendeu-me a chorar:

«nunca pensei que o meu menino ganhasse.»

Foram as suas palavras.

Viva a diferença!

Jorge C Ferreira Mai/2017(122)(Reino de Valência

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