20 MAR 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
“Adeus Senhor Barata”

 

A Gala da Sociedade Portuguesa de Autores deu em directo na RTP2. Não sei porque não deu na RTP1. Aceito explicações. Eu ali fiquei colado ao ecrã e tive um noite gratificante. Vi premiar e nomear gente de quem gosto muito.

Vi premiar o belíssimo livro “Anunciações” de Maria Teresa Horta. Vi um actor de quem gosto muito (Nuno Lopes), receber um prémio de interpretação. Vi passar pelo palco um rol de personagens que embelezam a nossa vida e a lhe dão mais sentido. Criar é amar o outro.

Mas o mais importante de tudo foi o amigo que António Lobo Antunes nos apresentou: o Sr. Barata. O Sr. Barata que foi tipógrafo, que brincou com os caracteres  em chumbo, que com eles formou os textos dos que escreviam em letra de forma, os escritores como o ALA. O Sr. Barata luta contra um cancro. Uma puta (como lhe chamou ALA), duma doença que o está a atacar à traição. Porque, na maioria das vezes, o cancro é uma doença silenciosa e traiçoeira. O António Lobo Antunes prometeu ir à televisão e, em directo, fazer um adeus ao Sr. Barata e, como o “prometido é devido”, cumpriu. Nunca, na minha vida, tinha visto um adeus tão carinhoso. Ao mesmo tempo deu uma ordem, com carácter militar de oficial para soldado, ao Sr. Barata:

«Livre-se, livre-se de não vencer essa puta que é o que o cancro é.»

Bravo António Lobo Antunes! Porque, nas coisas mais importante da vida, para além da amizade estão a ternura e os afectos. Um gesto que vale uma vida, uma carreira. Um gesto que vale alguns livros que nos encheram de júbilo.

Prémio de vida e carreira foi o que António Lobo Antunes recebeu. Porque para o seu gesto ainda a S.P.A. não criou prémio algum. O Sr. Presidente da República, associou-se ao acto. Também ele homem de  afectos. Um Presidente que não foi o meu candidato. Mas que arejou este País. Que lhe vai limpando o pó acumulado e as teias de aranha de tempos que queremos esquecidos.

Não sei como o Sr. Barata vai receber o escritor António Lobo Antunes. Não sei se o vai receber com a cara de menino de vinte anos. Sei que o Sr. Barata deve ter chorado como eu chorei.

Daqui, desde este meu simples espaço no Jornal de Mafra, faço, também, um adeus ao Sr. Barata. Um adeus de alento, de força e dou-lhe um abraço. Um abraço que estendo a todas e a todos os que, neste momento, estão a lutar contra aquela “puta”. Vocês vão vencer!

As amigas e  os amigos que chegam de mãos alarmadas com relatórios assassinos nas mãos. Os venenos e as ressacas. As cirurgias e aquele renascer numa cama de luzes. Amo-vos a todas e a todos e a minha mão estará sempre estendida.

A quem sobreviveu, a quem lutou, sofreu e venceu, o meu maior respeito e admiração. Uma luta tão desigual. Uma violência tão grande.

«Que coisas bonitas disse aquele Sr. Escritor, apesar da asneira. Gostei muito. Chorei.»

Voz da Isaurinda minha companheira destas coisas.

«Também eu chorei…»

Respondi-lhe enquanto, com um lenço de algodão, limpava os olhos.

«Chorámos os dois. Bonito aquele Sr. Escritor.»

De novo a voz de Isaurinda que parte, o pano na mão.

Jorge C Ferreira Mar/2017(113)

Pub

Achou este artigo interessante, partilhe-o com os seus amigos!

VISITE TAMBÉM A PRIMEIRA PÁGINA DO JORNAL DE MAFRA

Partilhe com os seus amigos!