06 MAR 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
“AbreNúncio!”

 

Temos mar, temos sol, temos a flor de sal, temos girassóis. Somos um rectângulo. Temos ilhas. Navegámos e chegámos muito longe. Estamos por todo o lado. Sítios onde ficamos porque sim. Fazemos filhos que não são de nenhum lado. Passamos a ser do sítio onde estamos sem deixarmos de ser de cá. Somos um rectângulo muito pequeno onde ainda existe gente que não viu o mar. Somos um País a cair para o mar. Um povo pronto a navegar. Um interior a ficar desertificado.

Somos o que somos. Nem mais nem menos. Nem anjos nem demónios. Somos a força e a fraqueza. Temos todas as virtudes e todos os defeitos. Com tudo vivemos e convivemos. Quando decidimos uma coisa e somos povo  conseguimos fazer nascer o belo.

Um velho com botas meteu-nos numa guerra que o havia de matar. Muitos perderam as botas nesse desastre. Muitas mulheres se vestiram de negro o resto da vida. Um desastre com marcas ainda visíveis.

Muita da nossa gente acredita em crenças e crendices. Vai a procissões de copo e vela na mão. Beija os pés ao senhor dos passos. Rasteja e atravessa de joelhos a passadeira dos sacrifícios. Na páscoa o compasso leva o menino a casa para ser beijado. O padre bebe um cálice do melhor vinho e come uma bolacha. A mesa cheia para receber a bênção. Um povo de fé.

Aturamos muita coisa. Muita gente sem vergonha. Gente que só olha para o seu umbigo. Gente que não nos pertence. Lixo tóxico a armar ao ecológico. Gente do mal dizer. A culpa que é sempre do outro. Gente com as arcas cheias de dinheiro passado a direitos e que nos chama demagogos e populistas sem um pingo de vergonha.

Entretanto:

Voa, voa, vil metal

para um paraíso fiscal.

Foge de Portugal. Vai para ilhas virgens e outras terras pouco limpas. Atravessa mares com o pressionar de uma simples tecla. Uma importância num ecrã. Tudo virtual. Um estalar de dedos. Uma suja magia. O espectáculo é sempre pago pelo mesmo. Bem faziam os galegos que tinham na tasca a célebre figura que o Bordallo  Pinheiro desenhou com uma frase que ficou célebre:

“Queres fiado? Toma!”

Nós, agora, devíamos ter à porta de casa o mesmo Zé e a frase:

“Queres que eu pague bancos? Toma!”

Dizem que não sabem como foram para fora, (como se diz agora), 10 bis. Agora é tudo “bi”. Bipolar, bissexual, biparvo e os parvos somos nós.

Voa, voa, vil metal

para um paraíso fiscal.

«AbreNúncio!» Diz uma velha, vestida de negro e com um lenço na cabeça, que jura ter visto o diabo.

O rectângulo vai resistindo ao mar e a Castela. Temos uma Capital multirracial, multiétnica, multirreligiosa. Temos a Mouraria, Alfama, a Madragoa e o Bairro Alto. Temos um castelo e um rio que é um mar. Temos poetas e palavras que voam. Uma língua rica. Temos o fado que nos perde. Choramos a cantar. A quase todos nos ensinaram a rezar quando éramos pequenos. As ciganas ainda vão lendo a sina nas palmas das mãos.

Temos Banqueiros sem bancos e sem vergonha. Temos usurários e casas de penhores. Tínhamos, na antiga feira popular, a casa dos horrores, os espelhos que nos deformavam. Temos gente que não nos pertence, nem nos merece. Gente do dinheiro fácil. Gente que só vê cifrões. Gente que vomita moedas de ouro.

«AbreNúncio!» Diz uma velha, vestida de negro e com um lenço na cabeça, que jura ter visto o diabo.

«Sabes, não compreendo aquela gente que quanto mais tem mais quer!»

Diz a Isaurinda,

«Minha querida, torna-se um vício, uma adicção. É como a droga ou o jogo.»

Respondo.

«Triste gente. Triste jogo»

De novo a voz da Isaurinda, que vai, o pano sempre na mão.

«AbreNúncio!» Continua a dizer a velha, vestida de negro e com um lenço na cabeça, que jura ter visto o diabo.

Jorge C Ferreira Mar/2017(111)

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