01 MAI 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
“A minha outra rua”

 

Quando lerem este texto, espero já estar na minha outra rua. No meu Reino. A ouvir outra língua, outra forma de falar e estar. A minha varanda grande. A minha esplanada encantada. O “Mare Nostrum”. A ilha.

Por aqui continuo a arranjar tudo o que deixo para a última. Sou de cá, sou daqui. Aqui nascido e criado. Sou da hora derradeira. Sou descendente do homem do saco. De gente peregrina. Caminhante de mil vontades. Amante da liberdade.

Cortei o cabelo. Não pareço eu. Já não me lembrava de o cortar tão curto. Quero parecer outro noutro tempo e noutra terra. Sei que serei sempre o mesmo. Já tenho quem espere por mim. Espero que me reconheçam. Uma eterna brincadeira. O esconde-esconde.

Sei dos beijos e dos abraços. Dos de despedida e dos de boa vinda. Já sinto o sabor da primeira tostada, do inicial sumo, do outro café. Espero ver todos, os mais velhos ainda a jogarem numa esplanada. As fichas na mesa.

Já vejo o caminho junto ao mar. O colorido que se confunde com os verdes e os azuis da água.  Os corpos conhecidos. O sabor que vem do mar. Uma onda rebelde. Um barco desencontrado. A barca em que ninguém entra. Uma espuma que nos entrega a verdade.

O grande areal. As bolas e os meninos. As meninas, os seios de silicone e muitos verdadeiros. A rede de vólei. Os saltos divinos. As pegadas na areia molhada. O monte e as casas penduradas nas  rochas.

A ilha. Sempre a ilha. A ilha que nos persegue. O pedaço de montanha mordida pelo gigante Roldan que só parou no meio do mar. A parte da montanha que falta. A ilha dos jornalistas.

Uma ilha com horário de abertura e fecho. Um santuário de algumas aves. Uma única casa. Uma única esplanada. Um acaso. Uma história mal contada que aceitamos. Só porque gostamos de nos encantar.

Os meus queridos amigos. As minhas lojas conhecidas. O pão nosso de cada dia. A descalça maneira de andar. As calças às ramagens. Uma outra liberdade. O barulho intenso do mar. Os pássaros madrugadores que vêm comer as migalhas das estaladiças “barras”.

Espero continuar a escrever-vos desde a minha varanda grande. É possível que achem um pouco diferente a minha escrita. Somos muito influenciados pelo que nos rodeia. Palavras que gaivotas enormes nos trazem. Por vezes nuvens de areia vindas do deserto, do outro lado do mágico mar.

Este é um texto entre um lá e um cá. Uma mistura de sentimentos e de mares. Uma salgada maneira de escrever. Um texto que podia ter sido escrito no avião que, espero, aterre no sítio certo.

Espero durante dois meses e meio viver outra vida. Já estou com saudades dos meus amigos da minha outra rua. Este hábito que continuo a não prescindir. Um saudável vício. Um salto entre afectos.

Sei que uma pomba me vai visitar na esplanada e tentar comer os meus amendoins. Sei de tudo e, no entanto, tudo me vai parecer novo.

Fazer nova uma velha vida, a alquimia dos sonhadores. Eu quero continuar a sonhar e quero que sonhem comigo. Iremos conseguir voar.

Nestes dias é escusado tentar ouvir a Isaurinda. Anda meditabunda. Não sei se é raiva, se saudades do ainda por acontecer. Também não me meto com ela. Olho-a e sei que a vou beijar muito quando me despedir dela. Sei que vai limpar os olhos com o pano que anda sempre na sua mão.

Jorge C Ferreira Mai/2017(119)(Reino de Valência)

 

 

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