26 Jun 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
A mágoa, a dor

 

Onde estás? Por onde andas? Tanto fumo, tanto arder, tanto chão em brasa. O verde que ficou negro. Os que por ali ficaram e por ali andam num caminho sem destino. Que sombra é aquela que ali vai? A imaginação do sofrimento. A mágoa, a dor.

Tanto negro. Tanto grito. Tanto choro e  dois amantes separados por labaredas que uivavam. Saber do que resta, do que já não é, da imensa falta, do espaço por preencher. Quanta gente falta a quanta gente? Quantos éramos e quantos somos? O fogo tem um  som. Uma música aterradora. Depois de tudo, fica um espaço de mortos/viventes. Uma assombração. Uma vasta negritude de imprevistas deambulações. Um fumo que brota sem sentido. O difícil respirar da terra.

Saber de ti. Saber do outro. Não saber de nada. Porque tudo se fecha em secretas gavetas sem chave e com um segredo inacessível. Velhos, novos, crianças, vidas, famílias inteiras, meias famílias, desaparecidas vivências. As casas ocas, as fotos queimadas. Perder todas as memórias num  lapso de tempo. Nunca mais ver a cara do bisavô materno.

O vento traiçoeiro. O vento que o próprio fogo inventa. Uma revoada de morte. Uma traição sem sentido. Tudo é combustível, tudo arde e faz arder. O trabalho por fazer. Tanta pergunta por fazer.

Embrenha-se gente valente por entre as brechas que o fogo deixa. Tudo o que levam é inferior à força da besta. Agora é tentar minimizar. Tentar sarar as muitas feridas abertas. Muitas feridas que nunca irão sarar. Nas cabeças passa um

sem fim de coisas que aconteceram e não aconteceram. A realidade e a fantasia num duelo doentio.

Todas as perguntas vão ter de ser feitas. Mas todas as coisas têm o seu tempo de acontecer. Agora ainda os corpos fumegam e as lágrimas não secaram. Ainda é tempo de saber quem é quem. Mas temos de ser exigentes. É tempo de exercermos a nossa cidadania a tempo inteiro.

Desde que aqui estou é a primeira vez que vejo abrir os telejornais com notícias do meu país e logo por este motivo tão trágico. Os vizinhos interpelam-se sobre o sucedido. Passam na rua e se estou na varanda chamam-me para conversar. Querem saber do sítio e das condições. Do porquê de tantos carros encurralados numa fatal ratoeira. Querem saber porque estava aquela estrada aberta. Tantas perguntas que não sei responder. Mostram-se tristes. Sinto-os solidários. Estão orgulhosos por estarem espanhóis a ajudarem no terreno. Afinal não vivemos de costas voltadas!

Na verdade estou a falar dos amigos do meu bairro. Amigos da minha esplanada, do meu café do povo, onde se joga dominó todas as tardes. Gosto de ir ali beber um café e ouvi-los falar, discutir as jogadas falhadas. Também eles estão informados do sucedido.

A tragédia é brutal. Tem proporções enormes. Necessita de uma análise cuidada. Necessita de assentar, mas não pode ser esquecida com o próximo facto que qualquer agenda mediática inventar.

Uma vez cheguei a casa do cabeleireiro e trazia o cabelo grande na mesma. Quando dizia ao meu Avô que tinha ido ao barbeiro ele dizia-me de imediato: «estava fechado?» Desta vez perguntei ao meu neto o que achava do corte e a resposta também foi imediata: «pareces o outro que andou a enterrar os mortos e a cuidar dos vivos.» Só depois percebi que o rapaz tinha andado a ler sobre o terramoto e tinha ido ao “Lisbon Story”.

Mas acho que é esse o tempo em que estamos.

«Estou tão triste, estou farta de chorar.»

Fala de Isaurinda ao telefone.

«Sim, é tudo muito triste.»

Respondo.

«Não há direito. Tanta gente desaparecida…temos de fazer alguma coisa»

Isaurinda de novo.

«Temos sim Isaurinda. Temos de fazer o luto primeiro.»

Respondo.

«Não me conformo!»

Última fala. Fala de Isaurinda.

Jorge C Ferreira Jun/2017(127)(Reino de Valência

 

 

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