07 ABR 2017 | Crónica  |  Alice Vieira

Pronomes, Advérbios e Outras Manias
Alice Vieira

 

Nestes estranhos tempos que atravessamos, acho que que já não me devia surpreender facilmente com o que vou vendo à minha volta ou lendo nas páginas dos jornais e revistas.

Mas a verdade é que ainda me surpreendo.

Imaginem que há autores, decerto com muita falta de assunto, que se dão ao trabalho de ler livros alheios para….

–…se maravilharem com a escrita?

–…largarem a obra a meio lastimando o tempo perdido?

–… se roerem de inveja por não terem sido eles a escrevê-la?

–…mandarem mails aos autores a felicitarem-nos?

–…ou a insultá-los?

Não. Nada disso.

Dão-se ao trabalho de os analisar e de os submeter  a uma data de investigações, para descobrirem, por exemplo, quantas vezes o autor emprega o pronome “ele”, ou “ela”, se utiliza advérbios, qual é o lugar comum mais recorrente em cada obra,  etc…

Claro que, com as novas tecnologias, isso até nem deve ser muito complicado…mas que gozo é que dará?

Não sei, mas sei que há sempre um editor que publica…

“A Palavra Preferida de Nabokov é Malva” é o título de um desses livros, recentemente publicado nos Estados Unidos.

O seu autor, Bem Blatt, deu-se ao trabalho de analisar obras clássicas e modernas, e chegou a conclusões extraordinárias. Diz ele, por exemplo, que  os romances de Jane Austen  são os únicos em que o pronome ”ela” aparece mais vezes do que o pronome “ele”.

(Os únicos? Os únicos entre quantos? De que autores?)

Por seu lado—continua ele—Tolkien utilizou o pronome “ele”,

em “O Hobbit”, cerca de 1900 vezes.

E Joseph Conrad e F.Scott Fitzegerald são os que mais utilizam o advérbio “subitamente”.

E o autor do erótico-célebre romance “50 Sombras de Gray” parece que tem um lugar-comum extremamente recorrente ao longo do livro: ”Não tenho palavras” (Aqui até percebo, porque toda a gente ao longo da leitura desta obra deve ficar de boca aberta…)

Pronto. Está bem. E depois? Como em tempos dizia uma velha colega de liceu, “em que é que isto contribui para a minha felicidade?”

Quando eu era nova, e não tinha tanto trabalho como tenho agora, confesso que fazia uma coisa semelhante: coleccionava as primeiras frases de livros de que eu tinha gostado muito. Deve haver cá por casa (quando tiver tempo, procuro) um caderninho de capa amarela (onde é que ainda vinham os computadores..) onde eu resgistava essas frases.

E ainda hoje me lembro de muitas.

Há umas que são—vim a descobrir mais tarde…– clássicas.

Como, por exemplo:

“Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a época da sabedoria, era a época da loucura, era a idade da crença, era a idade da descrença, era a estação da luz, era a estação das trevas, era a primavera da esperança, era o inverno do desespero, tínhamos tudo, não tínhamos nada ”—do “Conto das Duas Cidades” de Dickens.

Ou:

“A infância é um país estrangeiro; lá as coisas fazem-se de maneira diferente”, de “O Mensageiro” de L.P.Hartley

Ou ainda:

“Todas as famílias felizes são iguais;  cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, de “Ana Karenina”, de Tolstoi.

Mas depois o caderninho regista aqueles princípios de romances de que gostei mesmo muito, mas não sei se mais alguém terá gostado…

Apaixonada desde muito cedo pela obra de Machado de Assis, muitas vezes cito a maneira como ele começa o “Dom Casmurro”:

“Uma noite destas encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro que eu conheço de vista e de chapéu”. (E ,embora não seja a primeira frase, tb gosto muito de o citar quando diz: “é melhor cair das nuvens que de um terceiro andar”)

Mas no que toca aos autores portugueses , o meu “começo” de eleição vai para os “Passos Em Volta” do Herberto Helder:

“Se eu quisesse enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis.” (Eu estava então a viver em Paris e esse era o único livro em português que eu levara. Repetia essa frase vezes sem conto. Se calhar para não enlouquecer)

Mas também recordo:

“O Largo era o centro do mundo”, de “O Fogo e as Cinzas, de Manuel da  Fonseca.

Ou ainda:

“O meu amigo Jacinto  nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival”— que muitos recordarão serem as primeiras palavras de “A Cidade e as Serras”, de Eça de Queiroz.

Digamos que, pronto, esta será uma mania como outra qualquer.

Mas, apesar de tudo, penso que poderá levar as pessoas a interessarem-se pela continuação da história.

O que, muito sinceramente, não me parece que possa acontecer com a contagem de pronomes e de advérbios…

 

 

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