21 ABR 2017 | Crónica  |  Alice Vieira

Pessoas Assim
Alice Vieira

 

O actor Ruy de Carvalho está a festejar os seus 90 anos.

Homenagens, condecorações, prémios, exposições de fotografias—tem andado num corrupio que só mesmo a sua juventude seria capaz de aguentar.

Conheço o Ruy desde miúda (“ é minha amiga de infância”, dizia ele há dias…), do tempo em que ele aparecia num pequeno café que então havia ao cimo da Av. Fontes Pereira de Melo, em Lisboa (há muito soterrado com todos os Centros Comerciais que lhe cairam em cima…), onde também paravam outros actores–e o meu tio Joaquim, que era um apaixonado por teatro e adorava ficar a ouvi-los. E eu ia com ele.  E, pela sua mão, nunca faltei  às estreias do Nacional, do Monumental, do Avenida, do Parque Mayer. Naquele tempo pré-histórico em que as crianças podiam entrar em todos os espectáculos.

Lembro-me de ver o Ruy ao lado da Laura Alves, do Paulo Renato, do Villaret, da Madalena Sotto, sei lá de quem mais. E quando o encontrava na Paulistana lá lhe dizia :“gostei muito”. “Nunca me mintas” respondia ele. Mas era verdade. Eu gostava sempre muito.

E depois eu cresci, e assisti, com o meu primeiro namorado, àquela extraordinária aventura que foi o Teatro Moderno de Lisboa, que viveu de 1961 a 1965 no último andar do edifício do então Cinema Império, e nos fez acreditar num teatro (numa vida…) diferente. E lá estava o Ruy. Ao lado da Carmen Dolores, do Armando Cortez, do Fernando Gusmão, do Rogério Paulo ,etc.

E depois o cinema, e depois a televisão.

E  agora, tantos anos depois, quando eu pensava que o Ruy, a seguir a estas homenagens todas, tinha decidido parar um bocadinho…anuncia-me que dentro de dias vai com um espectáculo de poesia a Londres.

–A Londres?!—exclamo, com um ponto de exclamação.

E ele:

–…e a Hong Kong…

–A Hong Kong?!!!—exclamo com muitos pontos de exclamação.

E ele:

–…e à Austrália.

Devo ter esgotado os pontos de exclamação.

E lá vai. Como se fosse, sei lá, a Cascais, ou a Oeiras, ou a Vila Franca de Xira.

Há pessoas assim. E é um gosto vê-las assim.

E de repente lembro-me de outro amigo, este desparecido há mais de vinte anos, para quem a idade também parecia ser um pormenor sem a  mínima importância.

Chamava-se Artur Duarte, era realizador de cinema e possivelmente o nome não dirá muito aos mais jovens. Mas foi o realizador de, entre outros, “O Leão da Estrela”, e “O Costa do Castelo”, que ainda hoje nos põem a rir que nem doidos.

Conheci-o já nos últimos anos da sua vida. E, por altura dos seus 80 anos, fui fazer-lhe uma entrevista para o “Diário de Notícias”.

Quando entrei lá em casa, estava entusiasmadíssimo. Tinha uma coisa muito importante para me mostrar, dizia. Tinha trabalhado a noite toda, mas finalmente o projecto estava pronto. Só dar uma última vista de olhos, corrigir uns pormenores e, dentro de dias, garantia, ia mandar tudo para a televisão.

Olho para a grande mesa da sua sala de trabalho, completamente coberta de papelada e mais papelada, dossiers, lápis, borrachas, marcadores, esquadros, réguas.

— É uma série que quero realizar para a televisão—diz-me.—Sobre a nossa vida actual,  uma espécie de crónica de costumes…Já tenho tudo aí planificado. Porque…

E aclarou a voz, como se me fosse dar uma lição:

–…as séries fazem-se nestas mesas de trabalho. Aqui é que tudo tem de ficar feito.

Arrisco uma pergunta, quantos episódios terá a tal série?, e ele:

–Vai ter 180 episódios. Já está tudo aí marcado.

Um homem, aos 80 anos, a imaginar-se capaz de dirigir 180 episódios de uma série televisiva.

Morria dois anos depois, sem ter tido resposta da televisão.

Há pessoas assim. E é um gosto tê-las visto assim.

E nada melhor para rematar esta crónica do que recordar a grande Carmen Dolores, no esplendor dos seus 92 anos, a exclamar há dias numa entrevista na Antena-Um:

“Oh meu Deus, as coisas que eu fazia se tivesse 80 anos!”

Volto a dizer: há  pessoas assim. E que bom que é tê-las tido na nossa vida.

 

 

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