02 JUN 2017 | Crónica  |  Alice Vieira

A Propósito do Dia dos Museus
O prédio à minha frente

 

O taxista deixou-me à porta de casa.

Enquanto fazia o troco, olhou o prédio em frente e exclamou:

–Vivi tantos anos naquele prédio…

Estranhei. O prédio não tem assim tantos anos como isso e, além do mais, é daqueles que fazem com que os chineses andem pela rua de cabeça no ar para ver se eles estão à venda.

O taxista deve ter reparado porque rapidamente emendou:

–Neste, não. No que havia antes deste. Não sei se a senhora vive aqui há muito tempo mas, há para aí mais de trinta anos, no lugar deste prédio havia outro, muito velho, a cair aos bocados. Estávamos sempre a pedir ao senhorio que fizesse obras, e ele nada. Até que um dia aconteceu o que tinha de acontecer: o prédio ruiu… As traseiras ruiram com um estrondo que ainda hoje tenho nos ouvidos. Só me lembro de vir a correr para a varanda e gritar “o prédio está a cair! Acudam! O prédio está a cair”…

Nem quero acreditar no que estou a ouvir.

Há para aí 30 anos, estava eu diante da máquina de escrever (ainda nem me convertera ao computador, imaginem!), sem saber o que escrever e o prazo de entrega da crónica no jornal a esgotar-se. Nada me sai, nada me chega à cabeça, nada.

Quando de repente oiço um estrondo enorme, e gente a gritar.

Abro a janela e a D.Alice , que ficava sempre ao nível dos meus olhos quando eu me sentava à mesa para trabalhar e olhava pela janela para o outro lado da rua—gritava.

Lembro-me de ter pensado: “lá lhe fugiu o gato outa vez”.

Porque raro era o dia em que os bombeiros não apareciam com a escada Magirus para lhe resgatarem o gato que se refugiava no topo das árvores e depois não era capaz de descer.

Só que , entretanto, aos gritos da D. Alice juntam-se os gritos do vizinho do lado, “o prédio está a cair, as traseiras já ruiram, acudam”.

De repente eu tinha a crónica diante dos meus olhos.

Meto papel à máquina e vou contando o que se passa mesmo à minha frente, enquanto o pandemónio começa, sirenes, ambulâncias, bombeiros, automóveis de polícias, reboques para desobstruírem a rua e, claro, carrinhas da RTP e depois de todas as outras televisões para cobrirem o acontecimento.

O senhor continua a gritar. Por ele e por outros: ”se não nos acodem depressa, cai o outro prédio também!”

E eu a matraquear no teclado, a olhar e a querer contar tudo, a não querer deixar passar nada, como se estivesse a fazer um directo para a televisão, e a escrever tudo, que sempre me lembrava de ver naquelas janelas aquelas pessoas, a D. Alice, a D.Isabel do andar de baixo, o senhor do lado (de quem nunca soubera o nome porque vinha menos à janela e eu nunca o encontrava no supermercado, como a elas…) todos, todos ali há mais de 30 anos, naquele prédio que nunca tivera obras.

Vejo-os a serem levados para fora do prédio, há quem vá de maca para dentro das ambulâncias. A jornalista da RTP dirá mais tarde, no noticiário, que uma senhora ia em estado de choque, outra só repetia “fiquei sem nada!”, e que um senhor só perguntava “ a quem é que eu deixo a chave da porta?”

Lembro-me de tudo. Acho que era capaz de reproduzir a crónica que então escrevi sem falhar uma palavra.

Há tantos anos.

Sorrio para o taxista e só lhe digo:

— O senhor não sabe, mas eu sou jornalista e há muitos anos o senhor entrou numa crónica minha no “Diário de Notícias”.

É a vez de ele ficar espantado:

–Não me diga! Foi a senhora que escreveu tudo no jornal?

E então conta-me o final da história, que eu nunca tinha sabido: para não pagar indemnizações a ninguém, o senhorio argumentava que aquelas pessoas só estavam naquele prédio há uns dois ou três anos e por isso não tinham direito a nada. E a minha crónica tinha sido um dos argumentos que tinham ajudado, em tribunal , a repor a verdade dos factos.

Há dias em que gostamos mesmo da nossa profissão.

 

 

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