10 MAR 2017 | Crónica  |  Alice Vieira

No Alfa para Aveiro
Alice Vieira

 

Eu entrei em Santa Apolónia, ele entrou em Santarém.

Um vago “bom dia, com licença” ( o meu bilhete tinha-me dado a coxia, o dele a janela) e lá se sentou, a mesinha puxada, e o smartphone pousado em cima.

Eu continuei na leitura do livro que levava.

A uma dada altura oiço um murmúrio ao meu lado:”grande jornalista!”

Olho para ele, que aponta para o meu livro e repete: “grande jornalista!”

Fico sem palavras. Porque o rapaz deve andar na casa dos trinta e poucos,  e o livro que leio é a recente edição das crónicas radiofónicas do Fernando Assis Pacheco, que morreu há mais de vinte anos.

Ele percebeu o meu ar, e vá de me contar a sua vidinha, a paixão pelo jornalismo que sempre tinha havido na casa dos pais, ainda hoje compra um jornal todos os dias.

De resto,  o conhecimento do Assis Pacheco vem por via familiar: os pais são da zona  de Aveiro, e o Assis também tinha lá raízes e andava por lá muitas vezes, como se lembra de sempre ouvir dizer aos pais.

Vai embalado na conversa, o que é bom porque de repente, ficámos empanados no Entroncamento, e para ali estamos, parados, sem que ninguém explique o que é que se passa, como também é norma nestes casos—e uma boa conversa sempre ajuda.

Estou um pouco aflita—eu, que sou a maluquinha da pontualidade…–porque tenho trabalho marcado para as 11 horas na Gafanha da Nazaré e não sei a que horas lá vamos chegar.

Mas ele também está: tinha conseguido reunir a família naquele restaurante em Aveiro, para aquele almoço, porque depois tem de regressar à Suiça, onde trabalha na cidade de Genève. Só tem mesmo aquela manhã.

Para fazer conversa digo que conheço bem Genève, a  minha editora em língua francesa é de lá, por isso lá vou às vezes. Ele quer saber o nome da editora e, já agora, o meu, desculpando-se de conhecer pouca literatura portuguesa (o Assis é uma excepção…) mas desde há anos que vive no estrangeiro, primeiro em Londres onde conheceu uma búlgara com quem casou muito jovem e de quem tem duas filhas pequeninas ainda, e aqui a voz treme-lhe um bocadinho porque o casamento não durou e elas estão a viver na Bulgária e ele na Suiça.

O Alfa não arranca, e é então que nos mandam sair e nos enfiam num regional que para em toda a parte, e estamos ambos a ver a nossa vida a andar para trás, eu a mandar furiosos sms para explicar o meu atraso, ele com os dedos a navegarem sem descanso pelo smarthone.

Pelo meio mostra-me a fotografia das meninas, lindas e parecidas com ele.

“Se não fossem estas novas tecnologias não sei o que seria de mim…”, murmura. “Falo com elas todos os dias por Skype. Mas não é a mesma coisa… Sinto que estou a perder tanta coisa da infância delas…Claro que eu reconheço que elas têm lá uma qualidade de vida muito melhor do que teriam aqui…”

Vai conversando e os dedos sempre a nadarem no écran do smartphone, e eu a fazer contas ao atraso que levamos  até que ele telefona para um restaurante de Aveiro a fazer a marcação para o tal almoço de família. Reconheço o nome do restaurante, sorrio e digo que também lá ia às vezes, agora nem tanto, mas…

E logo ele corta a conversa e diz que é natural, o meu marido era dali, não era?, já morreu há uns anos, é certo, mas enquanto esteve vivo devíamos ir ali muito, embora eu não deva ter muito tempo livre , com mais de 80 livros escritos, é obra!

O meu ar a olhar para ele devia ser tão apalermado, que ele se riu, apontou para o smartphone e exclamou: “ está a ver as novas tecnologias? já sei a sua vida toda!”

Foi então que eu entendi por onde tinham navegado os dedos dele enquanto se esperava que o Alfa chegasse ao seu destino…

“Uma grande coisa, as novas tecnologias!”, repetia.

Até que finalmente chegámos a Aveiro.

Despedimo-nos, como se nos conhecêssemos desde sempre.

Já eu ia a descer quando o oiço: “a minha mãe está muito contente, por eu ter vindo ao seu lado no comboio!”

Mandei beijinhos para a mãe—e lá fui à minha vida, pensando que isto era exactamente um tipo de história que o Assis Pacheco havia de ter gostado de contar.

 

PubPUB

Achou este artigo interessante, partilhe-o com os seus amigos!

VISITE TAMBÉM A PRIMEIRA PÁGINA DO JORNAL DE MAFRA

Partilhe com os seus amigos!