30 DEZ 2016 | Crónica  |  Alice Vieira

 Língua Mãe
Alice Vieira

 

Pode parecer que estou obcecada pelo bom (ou mau…) uso da língua portuguesa, pois ainda na última crónica falei nisso.

Acreditem que não estou.

Mas há dias , enquanto ouvia uma canção da minha querida Luanda Cozetti, luso-brasileira, amiga do coração mesmo ( filha desse grande resistente dos tempos da ditadura chamado Alípio de Freitas) pensei na sorte que temos em falarmos uma língua como a  nossa.

Era uma canção de um amor perdido, ela bem se esforçara mas ele não estava nem aí. Ela tinha feito tudo, tudo, tinha até “esgotado o seu buarquês” .

Dei uma gargalhada e comecei a pensar como as pessoas podem ser criativas e brincar com a língua—e como é isso que faz uma língua estar viva.

Com “buarquês” queria ela referir-se, evidentemente, às canções de amor do Chico Buarque…

Fiquei a pensar a sério naquilo que a nossa língua significa para nós, no elo de união entre tantos povos que a falam, na maravilha que é lermos textos onde ela parece renascer, tal é a criatividade dos seus autores.

Quando eu andava no liceu, todos sabíamos de cor uns versos do poeta do século XVI António Ferreira. Ainda hoje os sei—e há dias, com um velho amigo, bastou que eu dissesse as três primeiras palavras para ele dizer logo o resto…

É assim:

“Floresça, fale, cante, ouça-se e viva

A portuguesa língua, e já onde for

Senhora vá de si, soberba e altiva”.

Isto era o que nós sabíamos (sabemos…) de cor. Mas a continuação é igualmente importante:

“Se até aqui esteve baixa e sem louvor,

Culpa é dos que a mal exercitaram.

Esquecimento nosso e desamor.”

E então fiquei a pensar –mais uma vez…–neste desamor pela nossa língua que reina por aí, nos crimes que diariamente se cometem nos órgãos de comunicação e noutros lugares (e por pessoas) igualmente responsáveis –e como nas escolas se podia fazer tanto para inverter essa situação, para fazer com que os alunos saíssem a saber falar português e a amar a sua língua.

E amar a língua não é papaguear os complementos oblíquos e outras maravilhas que as nossas crianças hoje aprendem. É dar-lhes bons textos. É fazê-los entender a força das palavras. É mostrar-lhes como o português não se reduz à língua que eles diariamente falam (aqueles que ainda falam…)

Ora leiam estes pequenos textos:

1.

“Homem se distraía, airado, do abarcável do vulto—dela aquela: que era uma capiôa barranqueira, grossa rôxa, demão um ressalto de papo no pescoço, mulher praceada nos quarenta, às todas unhas, sem trato. Mas que ardia ardor, se fazia. Os olhos tiravam mais, sortiam sujos brilhos, enviavam.”

2.

“Primeiro todos se estupefactaram. (…)Incrustada em espanto, a família, a família encarava a anciã. Carolina monumentara-se, acrescida de muitos tamanhos. (…) A claridade flutuarejava nos céus. (…) Os deuses pilavam as nuvens cínzeas e a água se amendoinhava, grão a gota”

À primeira vista pode parecer estrangeiro, pois pode. Mas acontece que são ambos de grandes escritores de língua portuguesa.

O primeiro, do romance “Miguelim e Manuelzão”, do brasileiro João Guimarães Rosa (1908-1967); o segundo, do livro “Cronicando”, do moçambicano Mia Couto .

São ambos em português: a língua que os portugueses há séculos levaram para o Brasil e para Moçambique. Como levaram para outras paragens.

Nem tudo o que então os portugueses fizeram por esses sítios foi de louvar. Mas deixaram-lhes a língua.

E já agora, termino com o excerto de um texto de Pablo Neruda, exactamente sobre este assunto:

“Amo tanto as palavras! As inesperadas, as que avidamente a gente espera, espreita, até que de repente caem. Vocábulos amados. Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal orvalho. Persigo algumas palavras. São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema. (…) Tudo está na palavra. Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e lhe obedeceu. (…) São antiquíssimas e recentíssimas  (… ) Que bom idioma o meu, que boa língua herdámos dos torpes conquistadores. Eles andavam pelas américas encrespadas (…) com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo. Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas. Por onde passavam a terra ficava arrasada. Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas—as palavras luminosas que permaneceram aqui, resplandecentes. O idioma. Saímos perdendo…saímos ganhando. Levaram o ouro e deixaram-nos o ouro. Levaram tudo e deixaram-nos tudo. Deixaram-nos as palavras.”

Pois é: levaram tudo e deixaram-nos tudo.

E que 2017 seja um bom ano—em todas as línguas do mundo.

Pub

Achou este artigo interessante, partilhe-o com os seus amigos!

VISITE TAMBÉM A PRIMEIRA PÁGINA DO JORNAL DE MAFRA

Partilhe com os seus amigos!