05 MAI 2017 | Crónica  |  Alice Vieira

Há Sessenta Anos…
Alice Vieira

 

Ontem, há exactamente 60 anos, aparecia, pela primeira vez no “Diário de Lisboa”, um pequeno suplemento dedicado aos mais novos. Chamava-se “Juvenil” mas, apesar do nome, era mais dirigido ao público infantil—o que o logotipo logo deixava adivinhar: o desenho de um miúdo a imitar um pirata, na borda de um barco de papel e com um boné também de papel . Dirigia-o Mário Castrim e Augusto da Costa Dias, estando as ilustrações a cargo de Tóssan.

Duvido que nesse dia ou nos seguintes esse pequeno suplemento tivesse sido muito falado, ou que o sempre atento censor de serviço se tivesse dado ao trabalho de olhar para ele. Coisas para crianças…

Pois.

O pior (ou o melhor, conforme o ponto de vista…)  é que, dentro de pouco tempo, o suplemento “crescia”.  Rapidamente passou de um suplemento orientado para as crianças para um suplemento muito mais dirigido a adolescentes  e jovens.

Que pensavam pela sua cabeça.

Que olhavam em redor e queriam contar o que viam.

Que escreviam sobre os livros que liam e os filmes que viam.

Que, nalguns casos—oh meu deus!—até liam perigosas revistas estrangeiras!

E o lápis azul, de repente, acordou.

Nessa altura o “Juvenil”, para lá de toda a parte literária e fotográfica (não esquecer que a censura tanto cortava palavras como imagens…), tinha já uma página de noticiário. Digamos que era um jornal em miniatura…

E havia prémios para os melhores ensaios, ou as melhores poesias, ou as melhores fotografias, ou os melhores desenhos, etc… E um “consultório” onde se faziam apreciações aos trabalhos que eram enviados.

Nessa altura eu tinha 14 anos.

Acho que nunca perdi um número do”Juvenil”, sempre a arranjar coragem para mandar uns textos.

E um dia arranjei mesmo. E na semana seguinte respondiam-me que sim senhora, até nem escrevia mal, mas que era preciso ler muito, e que, por ora, não pensasse em publicar.

Foi o melhor conselho que me deram em toda a minha vida.

Um pouco mais velha lá consegui entrar…e pronto, dentro de algum tempo estava a pertencer àquela grande família—donde saiu a maioria dos grandes escritores  ( e alguns políticos…) deste país.

Nomes como Luisa Ducla Soares, Hélia Correia, Nuno Júdice, Jorge Silva Melo, José Mariano Gago, Pacheco Pereira, João Camilo, Joaquim Magalhães, Luis Filipe Castro Mendes (o actual Ministro da Cultura…) , José Lello, Ilda Figueiredo, e tantos, tantos outros lá colaboravam regularmente.

Era o seu lugar de resistência.

E a censura percebia. E cortava, cortava.

Nessa altura já eu estava com outras responsabilidades no suplemento, e a entrar, de cabeça, no jornalismo.

E lembro-me que trabalhávamos muito, porque  era preciso sempre ter um suplemento de reserva porque ,muitas vezes, o “Juvenil” era integralmente cortado —e o jornal tinha de sair…

Mas ninguém esmorecia.

E faziam-se reuniões e toda a gente tinha sempre muitas ideias e , por muito que os nossos textos fossem retalhados, nunca ninguém pensava em desistir.

Mas outros pensaram por nós.

E no dia 8 de Setembro de 1970 saiu o último número. Ordens superiores determinavam o seu fim.

Mas, à distância destes anos todos, o “Juvenil” ainda continua a ser uma referência .  E quando encontramos alguém que nos diz “eu fui do Juvenil!”, caramba!, é quase como se dissesse “eu sou aquele irmão que não vês há muito!”

Foi há 60 anos. E parece que foi ontem.

 

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