16 JUN 2017 | Crónica | Alice Vieira

À Saúde das Tias
Alice Vieira

 

As minhas tias nunca tocaram em álcool.

A Tia Vitória, porque não lhe saía da cabeça a imagem do pai a entrar em casa aos trambolhões todas as noites, e a voz da mãe gritando “o vício do álcool há-de dar cabo de ti, homem!”—como deu.

A Tia Florência, porque sempre ouvira dizer que bastava um copinho de vinho à refeição para uma pessoa poder morrer de cirrose.

E a Tia Clara , porque não e acabou-se.

Morreram as três muito virtuosas, muito abstémias, muito saudáveis e muito velhas.

Deixaram de respirar, foi tudo.

Dava gosto olhar para as três, sentadas todas as noites muito direitas, nas cadeiras de espaldar alto da sala de jantar, e ouvi-las murmurar:

–Que Deus nos conserve sempre afastadas do terrível vício do álcool!

–enquanto lentamente, gostosamente, se deixavam levar pelo prazer único dos pequenos goles de Licor Beirão, depois do jantar.

Se, por acaso, alguém deixava acabar a garrafa sem haver logo outra pronta a entrar ao serviço, uma ginjinha também servia. Porque—como  muito bem explicava a Tia Florência, “ginjinha é fruta, e fruta é das coisas mais saudáveis para o nosso organismo.”

Tanto a ginjinha como o Licor Beirão eram regularmente fornecidos por um amigo do meu tio Ernesto, com armazém de venda ali ao Largo das Portas do Sol, junto ao Miradouro de Santa Luzia.

No lote vinham também garrafas de capilé e salsaparrilha, para as quais elas olhavam desdenhosamente, colocando-as depois na prateleira mais alta da despensa, onde lentamente apodreciam.

Faziam muito mal ao estômago, garantiam as três.

Por isso, quando eu era criança, sempre me lembro de ouvir chamar ao licor “o sumo das tias”.

Até àquela noite de Natal em que, de repente, se ouviu a voz ciciada da tia Clara:

–Acho que preciso de alguém que me ajude a levantar da cadeira…

Na altura não percebi por que é que ela, habitualmente tão ligeira, precisava de ajuda.

Assim como também não percebi por que é que toda a gente fugia para o corredor a rir à gargalhada, enquanto o tio Ernesto disfarçava o riso, tentando fazer cara séria e ralhar com o primo Augusto:

–Mas por que é que a encheste de medronhos?

E o primo Augusto, entre mais gargalhadas:

–Então, medronho não é fruta?

Só muito mais tarde percebi o cocktail explosivo que resultava de um, dois, três, etc…calicezinhos de licor, com muitos medronhos em cima…

Além disso, a minha tia Clara sempre fora, como ela dizia, “um pisco a comer”, o que também ajudara à desgraça.

Depois desse Natal, a tia Clara nunca mais quis ouvir falar de medronhos.

–Um perigo! –dizia.

–Um verdadeiro veneno! –acrescentavam as outras.

Como o capilé.

Ou a salsaparrilha.

E depois do jantar lá vinha, como sempre, o Licor Beirão.

Na sua inocentíssima garrafa.

Sempre.

Porque era fruta.

Até ao dia em que, passados os noventa, cada uma foi largando a vida.

Felizes e reconfortadas.

E, evidentemente, com a consciência completamente tranquila de nunca terem tocado numa gota de álcool.

É em tudo isto que eu penso, nestes últimos dias de Feira do Livro de Lisboa, olhando o Tejo cá do alto do Parque Eduardo VII, preparando-me para aguentar mais uma maratona…—com a ajuda de uma bela ginjinha, neste pavilhão mais cheio do que muitos pavilhões de livros, e onde se marcam encontros e conversas com a bênção tão doce dessa maravilha

Porque ginjinha é fruta.

Por isso só pode fazer bem.

Longe das malfeitorias do capilé e da salsaparrilha que, graças a Deus, não existem por aqui.

Vamos a isto, camaradas!

À saúde das tias! E que , entre os anjos e querubins, nunca lhes falte um licorzito para adoçar a eternidade.

 

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