19 MAI 2017 | Crónica  |  Alice Vieira

A Propósito do Dia dos Museus
Alice Vieira

 

Já dormi num museu.

Confesso que ao princípio senti alguns arrepios pela espinha, porque eu era a única pessoa viva no meio de uma data de quadros de pessoas mortas.

E as salas eram muito escuras.

Antes de me deitar, saí do quarto que lá me tinham reservado e, devagarinho, para não perturbar os fantasmas, fui dar uma volta pelas salas ali perto. Numa, pequenina, encontrei a mesa posta para o meu pequeno almoço do dia seguinte  e senti-me assim um bocadinho como aquela menina da história dos três ursinhos, que entra numa casa vazia e vê as mesas postas, as camas feitas  e a comida pronta.

Cá em baixo, na entrada, o segurança zelava por mim e, de vez em quando, ligava a perguntar “a senhora está bem?”. Reconfortante, mas ao mesmo tempo ligeiramente assustador, tal a insistência.  Assim como se me dissesse “quando começarem a aparecer os fantasmas, avise!”

Lembrei-me disto porque ontem celebrou-se o Dia dos Museus—que eu gostava mesmo que fosse um dia em que toda a gente enchesse os museus das terras onde vive ou perto delas. Neste momento é um gosto ir à Gulbenkian ver a exposição do Almada Negreiros, não só pela sua grande qualidade, mas também porque está sempre cheia de gente.

Mas de vez em quando entramos nalguns dos nossos museus e até faz dó ver as salas vazias.

É claro que há muitos tipos de museus. Em Lisboa, por exemplo,  quantos  é que já foram ao Museu do Azulejo? Ao Museu da Farmácia? Ao Museu da Carris? Ao Museu do Desporto?

Mas depois há aqueles museus que nos tomam de assalto e nos enchem para o resto da vida.

Nunca me esqueço de quando fui com os meus filhos a Atenas. Estávamos em finais de 1979 e eu tinha acabado de publicar o meu primeiro livro. Os meus dois filhos eram pequenos e tinham –me ajudado muito a  escrevê-lo. Quando saiu a notícia do prémio, prometi-lhes que, em paga, os levaria à Grécia, país com que ambos sonhavam, embalados pelas histórias da mitologia que o pai lhes contava antes de adormecerem.

Aterrámos em Atenas no meio de um mês de dezembro claríssimo e de uma aragem quase morna.

Tínhamos ido sem qualquer programa, aterraríamos em Atenas e depois logo se veria.

Época baixa, a cidade praticamente sem turistas.

Todos os dias subíamos à Acrópole.

De cá de baixo, pelos degraus de pedra até lá acima, as oliveiras a acompanharem os nossos passos.

Eu, um filho em cada mão, e os deuses pairando sobre as nossas cabeças.

Não falhámos um dia.

E lá em cima, entre as ruínas da Acrópole, desde o primeiro dia, estava Teresa à nossa espera.

Teresa—a guia mais extraordinária que alguma vez conheci.

Assim que nos avistava acenava e chamava as crianças—depois de, logo no primeiro dia, lhes ter explicado as raízes gregas dos seus nomes e o que ambos significavam.

E lá ficávamos passeando entre as colunas do Parténon, as pedras e o passado, com a voz de Teresa , no seu espanhol pausado, para que eles a entendessem, inventando sempre novas aventuras,  colocando naquele cenário os heróis que eles conheciam das histórias que o pai lhes contava.

Sem mais turistas pela frente, Teresa dedicou-se-lhes em exclusividade durante toda a semana.

Sentados nas pedras, ali ficavam eles a ouvir coisas que nunca mais esqueceram.

Quando penso nisto, tenho vagamente a  sensaçaõ de que tudo se passou na pré-história—quando ainda se podia passear livremente pela Acrópole e os tumultos políticos ainda vinham longe. Hoje a Acrópole só se vê cá de baixo, e há anos que  as estátuas dos deuses e heróis, e os frisos decorativos foram de lá retirados para integrarem o Museu da Acrópole—e assim ficarem a salvo dos rigores atmosféricos e das marcas dos turistas, sempre tão ávidos de souvenires.

Tudo certo. Se calhar não poderia ser de outro modo. Mas garanto que ver um friso exposto numa vitrine de uma sala asséptica de um museu não tem o mesmo significado.

Aquelas pedras, aquelas estátuas nasceram num determinado lugar e aí foram testemunhas de séculos , de guerras , de loucuras, de vidas, de mortes. Tudo isso deixa sedimentos que o ar condicionado das salas pode proteger—mas torna completamente gelado.

Naquele museu entram certamente muitas pessoas, por aquelas salas passam certamente muitos turistas , e possivelmente haverá também agora uma guia tão eficiente como Teresa.

Mas os deuses ficarão irremediavelmente cá fora, sem entenderem o que foi que fizeram das suas moradas.

 

 

Alice

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