11 Ago 2017 | Crónica | Alice Vieira

A nossa língua
Alice Vieira

 

Tinha chegado há pouco à estação de metro.

Passavam alguns minutos das sete da manhã e eu ali sentada junto do quiosque a fazer horas para me meter ao caminho até à clínica onde me iriam fazer cinco implantes nas gengivas.

A fazer horas, algumas horas — quer dizer, a tomar alento para a grande odisseia que me esperava

Felizmente que há uma espécie de esplanada junto do quiosque, daquelas que a proibição de fumar em recintos fechados fez nascer em todos os recintos abertos.

Mas em Agosto a esplanada está vazia. E a esta hora da manhã o quiosque ainda nem abriu. Nem se vê praticamente ninguém pelas escadas que dão acesso ao metro.

Só eu, a tentar arranjar forças.

Tiro o livro de dentro da mala, mas nem tenho tempo de o abrir porque de repente levanto os olhos e ele está na minha frente.

Enorme, negro, cabelo entrançado, olhos pesados de álcool e sono, ar de quem há muito não se lava nem se deita.

Olho em redor, o quiosque continua fechado e não há por ali ninguém que me possa acudir.

Penso

“é agora, é agora!”

e já o vejo a atacar-me, a roubar-me  a mala por esticão, mentalmente passo em revista o que lá tenho dentro, chaves, telemóvel, agenda– e a carteira com todos, absolutamente todos os cartões, de débito, de crédito, das muitas lojas donde gasto, para lá do CC e dos cartões de saúde, de segurança social, e de contribuinte, e da Cruz Vermelha, até o de eleitor lá anda pelo meio.

É um perigo, toda a gente me diz que é um perigo andar com os cartões todos, mas tenho sempre medo de precisar de repente de algum deles, por isso o melhor é andar com todos.

Puxo a mala contra mim, enquanto o homem me pede um cigarro.

Vou ter de abrir a mala para lho dar. Eu, que nem fumo, ando sempre com um maço na mala para acudir a amigos viciados…

E tenho a certeza de que vai ser agora que ele me vai atacar, já sinto o bafo dele na minha cara, as mãos dele no meu pescoço. Muito possivelmente já nem irei fazer os implantes.

Volto a olhar em volta e não passa ninguém, a menina do quiosque já devia ter chegado mas atrasou-se, e da polícia nem rasto.

Só espero que ele não repare como as mãos me tremem a abrir a mala, a tirar o maço de tabaco—que lhe entrego logo, inteiro e por abrir.

O rosto dele ilumina-se num enorme sorriso:

–Obrigado—diz, cambaleando e quase caindo para cima de mim—Obrigado pela sua amabilidade!

De repente pára (e quase cai de costas), e repete, muito devagarinho, separando bem as sílabas:

–A-ma-bi-li-da-de.

Depois franze a testa , agarra-me o braço

( “é agora, é agora!”)

e, muito sério, desata num discurso sem quebras:

–É “amabilidade” que se diz? Não será antes “amavilidade”? Se a gente diz “amável”, a gente devia dizer “amavilidade!” A não ser…a não ser que a palavra venha de “habilidade”, ou seja, a habilidade de ser amável! A-ma-bi-li-da-de!

E durante muito tempo ele lá ficou naquelas altas filosofias matinais, eu feita parva a olhar para ele, agoniada com aquele bafo de álcool e sujidade, até que ele se afasta e eu respiro fundo, ainda sinto as pernas a tremer—mas de repente ele dá meia volta e regressa, e deixa então cair a mão, pesadamente, no meu ombro

( “é agora, agora é que é!”)

eu tenho metro e meio e ele tem para aí o dobro e, enquanto olho desesperadamente em volta, ele olha para mim e exclama:

–A nossa língua é muito bonita!

O quiosque abriu nesse momento.

E eu paguei-lhe um café.

Aquele “nossa”, pronunciado com tanta convicção, tanto álcool e tanta sujidade, tinha-nos tornado, de repente, irmãos.

 

 

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