05 ABR 2017 | CRÓNICA| ALEXANDRE HONRADO

Somos Todos Refugiados

 

Aqui estou eu a pensar em coisas difíceis, exercício que revela a minha forte ligação pessoal com a dificuldade – a que me faz falar dos seres humanos e dos atos apenas para perceber os meus próprios gestos, por vezes também os meus sentimentos e as minhas ações. Creio que todos aqueles que escrevem – é o meu caso – limitam-se a perseguir sombras na demanda da sua iluminação (mesmo que seja fraquinha como as novas lâmpadas que trazemos para casa).

Quando estudamos História, a evidência entristece-nos: todas as épocas são épocas de desilusão. O que ansiamos da vida e daqueles que nos rodeiam para no limiar das nossas expectativas. Quando julgamos o mundo capaz de melhorar as suas dinâmicas, logo acontece mais um atentado contra a dignidade humana. Quando temos boa impressão de alguém, eis que nos aparece com espontâneas reações inesperadas e a confiança esfuma-se. Amores definham. Alguns ficam ódio. Grandes conquistas e descobrimentos da Humanidade antecipam grandes quedas e retrocessos.

A evolução do mundo é auto-preservação. Competição. Disputa, conflito, confronto. E todavia, é também tranquilidade, convergência lúdica e solidariedade.  Vindos de um passado de morte e destruição, seria de esperar que caminhássemos não para o extermínio final mas para a proximidade.

O hedonismo (do grego hedonê, “prazer”, “vontade”) é uma teoria ou doutrina filosófico-moral que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana. Será?

Leio relatos de Guerra. Por opção, apenas da I Guerra. Soldados anónimos e textos ingénuos, ao lado de oficiais famosos e eruditos famosos. Os relatos de guerra levam-nos até à náusea. Não há sentido lógico num desperdício de vidas, talento, capacidades humanas e científicas – a não ser o do lucro e da capacidade de ganhar com a guerra e há quem saiba fazê-lo de modo muito eficaz.  Nesses relatos que leio a progressiva desvalorização da vida parece ser uma constante. Toca-se em pontos nevrálgicos da existência, opostos ao hedonismo.  Conseguir chegar ao dia seguinte ou ao lugar mais seguro da trincheira é mais importante que qualquer sentimento. Para quem vive em paz – paz ameaçada, mas em paz – estas leituras, este pensar sobre coisas difíceis, criam uma matriz de pensamento capaz de sobressaltar. Sobre que sentimentos se constroem as atuais mitologias filosóficas? Existem hoje mitologias filosóficas? Pensamos? Destruímos utopias e ideologias e ficamos nus. A nossa orfandade leva-nos a procurar pais e mães adotivos em causas novas e sem virtude.

O jornal mais lido é o que mais mente, o espírito de aventura é o que mais mata, os novos mitos são mediáticos, as nossas esperanças são mais vãs porém mais radicais.

Talvez um dias receba um SMS com a explicação. Do que sou, de como sou, qual o meu lugar e que rumo devo seguir.

Um SMS, sim. É nos pequeninos ecrãs que nos refugiamos. Afinal, somos todos refugiados.

 

Alexandre Honrado
Historiador

 

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