08 MAR 2017 | CRÓNICA| ALEXANDRE HONRADO

Portugal, País de Heróis Atraiçoados

 

Há cem anos, feitos agora, Portugal combatia numa das mais vergonhosas guerras da humanidade.

Vergonhosas, repito. Porque se os homens se dignificam nas guerras, mostrando um lado heroico, fraterno, solidário promovido pelos extremos que lhes dão a viver, a guerra, qualquer guerra, tira a dignidade aos homens.

Todas as guerras são absurdas e sem mensagens. São os imensos pântanos sangrentos que servem o interesse de poucos e promovem a falência moral e física de todos os outros.

Alguns historiadores, com alguma graça, apontam para o lado de desenvolvimento que as guerras estimulam, durante os conflitos e no seu rescaldo. Esquecem-se do progresso que os povos manifestam em tempos de paz. É na paz que os povos se engrandecem.

Parece ridículo aos nossos olhos verificar que a Grande Guerra  (que ceifou a vida de milhões entre 1914 e 1918) começou com uma onda gigantesca de alegria; os povos viam no conflito a solução para os seus problemas, na conquista do território vizinho que lhes traria mais riqueza e mais poder.
O “nascimento” do indivíduo como entidade social com capacidade de decisão fundia-se com um novo conceito do coletivo. E o marasmo insuportável da nova sociedade industrial, fazia nascer, exatamente com a ideia de guerra, uma nova utopia, uma nova visão messiânica – a esperança renovada através de um futuro próximo mais próximo e tradutor de novos sonhos – e de um novo sentido de missão para o homem: a cada um o seu destino e para todos uma nova sociedade mais próspera e com futuro risonho para todos e para cada um.

Os novos progressos tecnológicos pareciam garantir isso. Mas assim como se inventara o raio-X e a sua aplicação prática (a cientista polaca, naturalizada francesa, Marie Curie levaria, durante a guerra, carrinhas com material portátil capaz de radiografar os soldados feridos em combate), também se inventara um novo tipo de armamento cujas consequências eram (ainda e então) imprevisíveis: das metralhadoras , às bombas aerotransportadas – nos zepelins e nos aviões -, ao armamento destinado ao mar, em barcos e nos temíveis e semiocultos submarinos.

A morte trazia novos rostos e novos efeitos especiais. A morte – e não a vida, como alguns tinham previsto.

Um pouco antes, por volta de 1870, os alemães – tinham feito uma guerra rápida, no terreno, vitoriosa. Aliás, o primeiro ministro Bismarck, o chanceler de ferro, criou um País: levou os países germânicos a conhecer pela primeira vez na sua história a existência de um Estado nacional único, a poderosa Alemanha. Graças a esse poder de ação, mobilização e rapidez de movimento, ganharam uma guerra. Pensavam ganhar qualquer outra do mesmo modo.

A nova guerra, a que nasceu em 1914 era diferente. Na sua origem esteve um episódio (quase um capricho) ocasional: a morte do arquiduque Francisco Fernando às mãos de um radical sérvio, que provocou um verdadeiro castelo de cartas de precipitação mundial. O Atentado de Sarajevo, foi o nome dado ao incidente que, em 28 de junho de 1914, vitimou para além do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, também a sua esposa, a duquesa Sofia de Hohenberg, em Sarajevo, capital da Bósnia.

O atentado foi executado por Gavrilo Princip, membro da organização nacionalista sérvia denominada Mão Negra, que tinha como objetivo a criação da Grande Sérvia.

Toda uma geração foi dizimada nesta guerra. Milhares de portugueses morreram nas frentes europeia e africana.

Quando regressaram a Portugal, os soldados, não tinham a glória e o reconhecimento à sua espera:  um golpe de estado, brutal também, pôs Sidónio Pais no poder, atraiçoando a frágil República implantada em 1910 e os seus sonhos democráticos.

Sidónio, num golpe de estado militar, matou republicanos (e povo anónimo e inocente) e abriu a porta ao Estado Novo. Sendo militar – era major que, mal ocupou o poder se nomeou General, mandando fazer fardas e sobretudos com galões e botões dourados a condizer –  fez o que nenhum militar digno desse nome pode fazer: atraiçoou os seus pares (matou-os e prendeu-os, em nome do fim da demagogia, como se evocava então).

Há cem anos feitos, Portugal tinha heróis – ignorados. E homens extraordinários, alguns dos quais ficaram em campas que perderam com o tempo a identificação, batidas pelas intempéries em cemitérios europeus onde só a História, mesmo a que ainda não foi escrita,  os aconchega.

 

Alexandre Honrado
Historiador

 

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