19 ABR 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

Ordem e desordem
O mundo em que vivemos

 

Cabe-me, e a todos nós, estudantes de Cultura, assumir o lado iniciático, operacional, utilitário e capaz de dotar-nos de metodologias operatórias sumamente interessantes, que a Antropologia emana – e não serei exceção enquanto perseguidor do entendimento Humano.

A Antropologia, a ciência que tem como objeto o estudo sobre o homem e a humanidade de maneira totalizante, ou seja, abrangendo todas as suas dimensões, oferece ao nosso laboratório mental as pequenas utensilagens, as alfaias capazes de, num pensamento aberto, ir entendendo como somos e porque agimos.

Não quero dizer com isto que fiquemos habilitados a mudar o homem, muito menos o homem cultural, aquele que altera, transforma, condiciona e estraga aquilo que o rodeia. Menos ainda que percebamos porque agimos desta ou daquela maneira em contextos pouco estimulantes. Mas confere-nos matéria de afinidades: com aquilo que queremos para nós ou simplesmente com o que recusamos mais intensamente.

Se estudar já é tão impopular, imaginem a reação se viesse aqui propor que se estude a essência do homem, as suas ambiguidades, ideológicas ou utópicas, integristas ou fundamentalistas, nacionalistas ou patrióticas. Os principais temas sociais de hoje passam pelo individualismo, pela decepção, pela impureza dos sentidos, pela falta de qualidade do ar que respiramos e da forma com que entendemos o nosso semelhantes e sobre as intrincadas relações entre problemas cruciais – fome, sobrevivência, sede, vida humana – e o juízo moral – que se diluiu e anda por vezes por aí em torno de um dos seus degraus de ser, o juízo ético.

Não somos ajuizados, menos ainda somos de grande sentido de justiça.  Basta ver como a opinião publicada insiste em condenar publicamente os réus antes de provas, defesa, enfim, antes de julgamentos onde uma Lei intrincada e vesga faz impossíveis para evitar linchamentos (mais) sumários que esses sim são a injustiça, sempre ansiada pelos mais básicos.

Não valorizamos o outro e temos grandes dificuldades em ser no outro e em ser com o outro.

Veja-se como exemplo… Ouvimos já nos corredores da sorte que afinal Donald Trump é um tipo corajoso por ter aprovado o lançamento de uma bomba, mãe das bombas (ah, como é afetiva a crueldade!) que acabou por matar menos inimigos do que os automóveis matam por hora nas estradas norte-americanas, e atingir uns túneis anónimos, onde a poeira e a sombra não trazia, aparentemente grande mal ao mundo.

Trump vira-se agora para a Coreia do Norte e oferece-nos o garrote coletivo de um futuro cada vez mais ameaçado a curto prazo.

As novas gerações não percebem de onde vieram, nem para onde vão e à hora dos telejornais estão muito longe, onde procuram entender onde estão, por vezes com muita dificuldade.

Interrogamos qual o papel do humanismo – tenha ele dimensões marxistas ou cristãs, que o há de tantas espécies e feições – e que futuras formas pode ter num mundo que está em transformação, recuando a valores da Idade Média, e abandonado à sua sorte pois delegou as decisões mais pesadas nas mãos de delegados impróprios e dementes. Palavras como progresso e desenvolvimento caem desuso. É melhor matar o inimigo que viver uma vida mais feliz – e mesmo a felicidade é aparentemente personagem de ficção.

A necessidade de uma inteligência sensível – é o que emerge do que vamos observando. Mas também constatamos a progressiva e triunfadora marca do analfabetismo emocional.

Como disse certo dia, no Japão, um antropólogo de primeira linha (falo do ano de 1986 e de Claude Lévi-Strauss): somos ordem e desordem; isto é: somos cultura e sociedade.

As minhas desculpas, mas hoje apeteceu-me escrever isto. Está um dia lindo, todavia.

 

Alexandre Honrado
Historiador

 

 

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