Não há discotecas com vida própria. Não amam, nem sequer amam outras discotecas como elas. No entanto, o preconceito ditou que nos títulos sobre a recente matança do Pulse, em Orlando, celebrassem a incapacidade de aceitação de um comportamento sexual (comum e antigo como a história do Mundo). A discoteca passou, por isso, a ser Gay. A discoteca Gay. E a partir desse instante, o mundo do preconceito tornou menor a sangria. Ah, bom, isto não tem nada a ver comigo; é de um grupo minoritário que se trata e nem é um daqueles que eu mais aprecio (pensaram alguns).

A estabelecer a fronteira, a imprensa distanciou assim a opinião pública do verdadeiro crime: Omar Mateen, um criminoso sem adjetivos negativos capazes de o definir com propriedade, assinou uma matança de inocentes.

Dêem uma arma a um imbecil e terão um candidato ao maior protagonismo (chame-se ele Bush, Durão Barroso, Azenar, Donald Trump ou Omar, para não falar de alguns pequenos ditadores que andamos a trazer por casa, aqui mesmo, no quintal dos brandos costumes).

É certo e sabido que a distância entre aquilo que nos sensibiliza e as nossas incapacidades é diretamente proporcional.

Um massacre em Paris não se compara com um massacre na Nigéria ou no Chade – se formos europeus e de cultura média, nem sabemos onde fica um ou o outro. E na hora de evocar os Direitos Humanos, muitos não sabem do que se trata, nem para que servem, como se aplicam, menos ainda como se defendem.

Mesmo tendo provas que no nosso partido, no nosso bairro, no nosso prédio, na nossa família há quem seja, por exemplo, homossexual, viramos o rosto para o lado conveniente e à hora certa mudamos de canal, fingimos não ser, não ver, não saber (e as gloriosas exceções  daqueles que são, vêem, sabem, ousam, recorrem a uma coragem gigantesca para defender a sua dignidade, nem sempre com resultados positivos).

A menos que a nossa cultura seja outra, temos essas grilhetas brutais que uma vezes são homofobia, outras racismo, outras, simplesmente, uma falta de capacidade humana aberrante. Andamos sempre presos ao que não conseguimos ser ou evoluir.

No entanto, há muito detalhe omitido neste caso – e muita história mal contada. Muito interesse a defender, como os da direita mundial e norte-americana em especial.

A visão de que se tratava de um ato terrorista começou com o presidente Barack Obama (ao afirmar que foi um “ato de terror e um ato de ódio”) e amplificou-se com Trump, que desejou ligações fortes aos assassinos do Estados Islâmico que, tarde de mais, alegadamente, vieram depois procurar os louros.

No entanto, paremos para pensar. É inverosímil que  um rapaz norte-americano, Omar Siddique Marteen, de 29 anos, nascido na cidade de Nova Iorque, descendente de afegãos, e sem envolvimento em qualquer crime, apareça como um frio e brutal assassino ligado ao Estado Islâmico – a começar que no Afeganistão o grupo guerrilheiro ligado aos Pashtu que recebe apoio dos seus, é o grupo dos Talibã (que têm perdido protagonismo, perante a loucura dos seus concorrentes).

Omar odiava os homossexuais, disso dúvidas não ficam.  Como antes outros feriram a cultura ocidental nos seus núcleos de liberdade de expressão – como no atentado ao Charlie Hebdo – ou nos valores do homem lúdico que se descontrai e se diverte sem mais aparentes compromissos (como no atentado do teatro Bataclan), por simbolizarem o que somos: feitos de liberdade e construções do que consideramos livre. Seres que graças a essa liberdade amam sem exceção.

Donald Trump, uma espécie de Omar que procura o pedestal do maior poder do mundo, tentou virar o ódio do assassino para uma das suas lutas: o anti-islamismo. É atitude comum em Trump. Com medo de chamar as coisas pelos nomes, Trump atirou Omar para o mundo muçulmano – retirando-o ao mundo de onde veio: o do preconceito primário e acéfalo. Mas se Omar veio ajudar Trump, o que dizer de Hillary? Hillary Clinton está ligada ao complexo militar industrial, aos grandes bancos e às petrolíferas. Precisa de argumentos na campanha – e um Omar é tão oportuno!

Mentalidades? Ódios religiosos? Interesses milionários? Política?

Não há discotecas gay, nem respostas fáceis para as perguntas mais intensas.

Não são as religiões mas a política que conduz os homens aos seus embates mais ferozes. Mas é a imoral dos preconceitos que distingue os homens racionais dos que agem irracionalmente.

Acredito que um dia todos nos libertaremos. Que deixaremos a farsa antiga da mitologia e da revelação, pelo que podemos ser juntos e em inter-relação.                          Alguns chegarão lá – à liberdade de ser em liberdade – mais facilmente que outros. Os homossexuais, por exemplo, lutarão muito mais do que alguns outros, até ao equilíbrio final (estou convencido disso).

 

Alexandre Honrado

Historiador

Partilhe com os seus amigos!