01 MAR 2017 | CRÓNICA| ALEXANDRE HONRADO

Mascarado de cebola
A seguir o ritmo da marcha

 

Escrevi tantas notícias ao longo da vida que deixei de acreditar nelas. Não tanto pelo que escrevi, convencido de que o fazia de boa-fé, depois de confirmadas as fontes e certo de cumprir um dever, diria, quase uma missão, mas porque os sucessivos filtros que se sobrepõem acabam por fazer, como as camadas de fina pele fazem uma cebola, com que a verdade seja qualquer coisa mais próxima da ficção do que da realidade. Hoje até se fala, com desfaçatez, de pós-verdade – “neologismo que descreve a situação na qual, na hora de criar e modelar a opinião pública, os factos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais” – o que é, se formos a ver bem, a legitimação da mentira, ou melhor, a própria mentira consagrada.

Podemos dar muitos exemplos, dos desvios para os paraísos fiscais e a fuga ao fisco de milhares de milhões, a fraude e a evasão fiscal, que nos afetam mas que a própria lei enfia em becos praticamente sem saída – oiça-se Paulo Núncio a tirar muitos cavalos da chuva quando ouvido, agora mesmo, no Parlamento. Ou Donald Trump, lobo em pele de cordeiro, na sua primeira intervenção no Congresso – e veja-se como, servilmente, tantos o aplaudiram de pé.

Pegue-se no exemplo da morte do meio-irmão do líder Kim Jong-un, que o próprio governo coreano apenas refere como “um cidadão” norte-coreano que “transportava um passaporte diplomático”. Repare-se no tipo de morte que lhe coube, atacado por gás letal, esse gás que as guerras não usam por convenção e que, contraditoriamente, o relatório produzido sobre este assassinato faz destacar: “O único uso conhecido do VX é em contextos de guerra química e o Centro para o Controlo e Prevenção da Doença (CDC, na sigla inglesa) dos Estados Unidos descreve-o como “o mais potente” de todos os agentes que atuam sobre o sistema nervoso.  Um gás não usado cujo único uso conhecido é…

Repare-se nas duas mulheres acusadas de terem assassinado Kim Jong-nam, vítima de um atentado no aeroporto da capital da Kuala Lumpur e já acusadas formalmente de homicídio: alegam ter sido vítimas, elas próprias, de fraude e que julgavam estar a colaborar num programa de “apanhados” de uma televisão que até lhes pagou para o efeito!

Tudo parece, de facto, um reality show! Dos offshores a Trump, de Paulo Núncio ao VX, e a outros gases tóxicos. A Grande Cebola!

Escrevi este texto em época de Carnaval. É em resumo sobre máscaras. Uma a uma vão caindo. Hoje sabe-se mais do mundo em que vivemos e da hipocrisia que o move, mas isso ainda não nos permite descascar a cebola da vida sem chorarmos copiosamente. A vida é uma cebola. E sem as suas películas desaparece. Criámos uma ambiguidade a que chamamos civilização. Oscila entre a mentira legitimada, o que nos é tóxico e o desespero de perder utopias que pareciam legítimas e esperançosas. Mas é carnaval – deve ser por isso que escrevo ao ritmo de outras marchas.

 

Alexandre Honrado
Historiador

 

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