29 MAR 2017 | CRÓNICA| ALEXANDRE HONRADO

Fátima
1917
Visões e aparições

 

Quando em algumas aulas, em muitos pontos por onde ando falando de temas que me cativam e que a alguns agradam, digo que me tenho debruçado com intensidade sobre o ano de 1917, alguns perguntam-me quase logo: e Fátima? Acredita nas Aparições? Foram visões? O que lhe ocorre?

Ocorre-me pouco, na verdade.

Fátima quase nada foi em 1917 e esperou até 1930 para ter dimensão internacional.

Não teve grandes conteúdos na altura em que estes conteúdos se registaram e a revelação dos Segredos, em especial a última e mais protegida, não motivou muito mais do que um encolher de ombros, no mundo católico ainda mais forte do que em outros.

Episódio inequívoco de culto popular mariano, deve ser respeitado naquilo que é: ânsia de povos pobres e desprezados, ameaçados pela sorte e pela história, manifestação de crença, fervor e vontade de acreditar. Cultura.

Na altura, os episódios das sucessivas visões foram engolidos pelo quotidiano: Portugal estava na I Guerra Mundial onde perdia mutos dos seus filhos. Portugal, no Continente, estava debaixo de um golpe de Estado sangrento,  ditatorial, que seria a antecâmera e uma das fases propedêuticas para a vergonhosa traição ao progresso que se estabeleceria de 1926 em diante.  Portugal abalava, à distância, diante de uma das revoluções mais decisivas do século XX, a Revolução de Outubro, que aqui chegava como tudo, em distorcidos ecos amedrontados.

Ao ter acesso – não são mistério, garanto – aos interrogatórios feitos aos três garotos da Cova de Iria,  o que me ocorre não altera em nada o que atrás escrevi.

Lamento muito a sorte dos três garotos, dois deles morreram em circunstâncias trágicas, levados por uma doença que vitimou milhões de pessoas no final da segunda década de 1900 ( terrível pandemia do vírus influenza que se espalhou por quase toda parte do mundo, a gripe espanhola) . A terceira testemunha, a principal, durou muito mais – mas também nunca chegou a ser menina.

Dou agora como exemplo o primeiro dos interrogatórios que li, o interrogatório do Pe. Manuel Marques Ferreira, pároco de Fátima, a Lúcia de Jesus Santos sobre a primeira aparição. O Padre Manuel Marques Ferreira, então com 37 anos, nasceu a 22 de março de 1880 em Casal Menino, freguesia de Espite, concelho de Ourém, foi pároco de Ourém (1908-1910), Sabacheira (1910-1914), Fátima (1914-1919), Maceira (1920-1927) e S. Simão de Litém (1927-1945) Faleceu a 26 de janeiro de 1945.

“Lúcia disse que andavam todos… e todos viam uma mulher. O Francisco que só a viu quando ela partiu. A Lúcia disse que estavam assentados todos e que a mulher apareceu ficando para o lado da Fátima.

Primeiro viram um relâmpago, levantaram-se e começaram a juntar as ovelhas para se irem embora com medo, depois viram outro relâmpago, depois viram uma mulher em cima duma carrasqueira, vestida de branco, nos pés meias brancas, saia branca dourada, casaco branco, manto branco, que trazia pela cabeça, o manto não era dourado e a saia era toda dourada a atravessar, trazia um cordão de ouro e umas arrecadas muito pequeninas, tinha as mãos erguidas e quando falava alargava os braços e mãos abertas.

Essa mulher disse que não tivessem medo, que não lhes fazia mal. Perguntou a Lúcia:

– Que lugar é o de vossemecê?

Ela disse:

–O meu lugar é o céu.

– Para que é que vossemecê cá vem ao mundo?

– Venho cá para te dizer que venhas cá todos os meses até fazer seis meses e no fim de seis meses te direi o que quero.

– Vossemecê sabe-me dizer se a guerra ainda dura muito tempo ou se acaba breve?

– Não te posso dizer ainda enquanto te não disser também o que quero.

Perguntei-lhe se ia para o Céu e ela disse-me:

– Tu vais.

-  E minha prima?
–  Também vai.
– E meu primo?– Esse ainda há de rezar as continhas dele. E depois disto abalou pelo ar acima.Os outros dois ouviram as perguntas e as respostas mas não fizeram

E nós?

Algumas. Sem resposta.

 

 

 

Alexandre Honrado

Historiador

 

 

 

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