12 ABR 2017 | CRÓNICA| ALEXANDRE HONRADO

Entre Tomahawks e Benalmádena

 

O que torna óbvia a ideia de que a História é irrepetível é saber que a sua autoria pertence ao ser humano, que, obviamente, é um animal de ações e emoções irrepetíveis. O que fazemos é sempre produto de uma escolha momentânea, assente numa sentimentalidade mais ou menos sofisticada mas sempre própria e individual. Nesse individualismo tecemos proximidades, claro, e é assim que nos movimentamos em coletivo, estranho contagio em que Maria vai com as outras, por vezes com muito acerto e noutras tantas com uma demência incontornável.

Podemos ser parecidos, nos atos e nos momentos que protagonizamos, mas nada do que outros fizeram no passado é como o que nós fazemos agora – e os momentos de maior exaltação ou de conformismo dos nossos avós são bem diferentes daqueles que exaltam e aquietam os nossos filhos. Pelo meio, ficamos nós, com outras passadas, lentas ou rápidas, ao sabor dos nossos caprichos e possibilidades. Podemos ser cobardes ou grandes heróis. Mas não o somos por herança ou mimetismo. Somos o que somos, no momento de ser. Felizmente, a História não é um tribunal: é apenas o que se passa e o registo de como se passa, dependendo do rigor, da isenção e da credibilidade que quem assume ser assim a testemunha.

O que pode ter eco, na aparência de uma repetição, é o cúmulo de espantosas coerências que fazem de nós aquilo que somos: cíclicos; habitantes de hábitos; desconfiados; desdenhosos; e violentos. E como somos contradição e contraditórios, também sabemos ser: criativos; combatentes da monotonia; confiantes; crentes; e pacíficos.

Sem cultura nem memória, limitamo-nos. A primeira é o modo, nem sempre certo, como lidamos com a natureza; a segunda é uma ilusão, um sobrepor em camadas do que mais nos afetou.

Abro a leitura dos noticiários e passo círculos vermelhos, mentais, em torno de acontecimentos. Donald Trump, aprendendo com os seus generais que aprenderam com o passado, aposta na guerra como alavanca de uma economia desorientada e assente em golpes sem escrúpulos e na avidez do lucro, do ágio, do domínio.

Trump não tem o menor talento, a menos que obedecer aos grandes interesses do capital e da política que o gere se conte como dote. E obedece cegamente: aos interesses dos que investiram na sua fraca figura, aos colegas do mundo do negócio, a interesses menos visíveis mas sempre óbvios – e segue uma política autónoma de destruição aparentemente cega e indiscriminada, pois o alvo é a sua própria sobrevivência.

Não há pingo de humanitarismo quando, para se evitar bombardeamentos químicos, se responde com bombardeamentos convencionais (não sei desde quando é que uma carga de explosivos não é química!) sabendo-se que ambos vitimam civis inocentes – e dão milhões a ganhar a quem carrega no gatilho ou a quem manda carregar (comodamente instalado a distância segura).

Leia-se: o ataque dos EUA na Síria usou os Tomahawk, mísseis teleguiados de médio e longo alcance. Começaram a ser usados na Guerra do Golfo em 1991 e permitem lançamentos seguros a grande distância. Os Tomahawk podem chegar a atingir alvos até 2.500 quilómetros de distância. Possuem tecnologia única, um sistema de navegação localizado na cabeça do míssil que permite manter uma baixa altitude em relação ao terreno, contornando os obstáculos. Isto significa que não vai de um ponto de origem para um alvo em linha reta, mas em modo de navegação. Cada míssil transporta uma ogiva com  meia tonelada de explosivos. Cada  um destes Tomahawk custa pouco mais de meio milhão de euros, de acordo com informações da marinha norte americana. É a guerra química produzida e aplicada a uma escala brutal.

É certo que estive para escrever sobre outra das notícias que mentalmente rodeei a tinta vermelha. Estive para escrever sobre as criancinhas malcriadas – finalistas! De? – que se portaram como marginais, vandalizando Benalmádena, um lindíssimo e pacato município da província de Málaga.

Mil Trumps em miniatura fizeram o que todos os Trumps deste mundo fazem: cometeram atos de violência, primários e indesculpáveis. A tristeza é que estes mini Trumps são portugueses. E Portugal merecia gente mais crescida, formada para a cidadania e para a integração, capaz de interculturalidade, ou melhor: democratas, capazes de dar o exemplo além fronteiras. Acredito que aquele triste holandês que nos vê em orgias sucessivas, terá sorrido triunfalmente.

A História é irrepetível, felizmente. Se não fosse, algum ditador de tendências assassinas, daqueles que constroem prisões, promovem censura, mantêm o povo na ignorância e no temor pelo terror, escravizam povos e prolongam guerras absurdas, um desses de Comba Dão e botas de elástico, estaria entre aqueles mil ou pelo menos, constaria do punhado mais ativo que tão mal nos representou em Benalmádena.

 

Alexandre Honrado
Historiador

 

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