Escrito num dia feriado

14 Jun 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

UM TEXTO QUASE INÚTIL

ESCRITO NUM DIA FERIADO

 

Os braços muito quentes e suados mergulhados de repente numa taça de gelatina gelada, enorme.

Deve ser essa também a sensação, talvez inversa, da parteira no seu primeiro parto: as secundinas a forrarem-lhe, pegajosas e inúteis, quentes e líquidas, os braços arrefecidos.

Quero dizer: o contraste espanta-nos, é desagradável como entrar no cérebro de um demente e procurar entender-lhe alguma lógica, detestável como tentar perceber um povo quando se desloca em grupo perdendo os sentidos, a fugir de um atentado que não houve, entregando-se impotente a um destino cruel que só se anuncia, temente de um futuro mais amargo do que aquele que já conhece, de uma má decisão que julga ser a seu favor ou, muito pior, refugiando-se como habitante dos seus hábitos, lamentando-se, conformado com a sua sorte.       Se o contraste é desagradável, também a ele nos habituamos.

Estranha-se-entranha-se, diria o publicitário.

Finjo ter um dia de ócio, e reparto-me por pesquisas interessantes na Rede, também a ler os livros novos, alguns com mais de cem anos e a pensar por escrito, que é assim o modo como sei pensar em voz alta.

Visito um museu na Internet. Sala por sala, quadro por quadro. Amplio pormenores e suspiro de prazer porque não tenho à minha frente uma turba de turistas, visitantes ocasionais, com os seus telemóveis em riste para captarem uma amostra de imagem que mostrarão aos amigos, vejam bem este troféu, que inútil foi ter lá ido, que não vi nada a não ser o pequeno ecrã do meu telemóvel.

Saio dessa visita virtual com mais paz interior, a pensar todavia que não é por haver tanta oferta que somos mais sábios, nem mais pacificados. Porque, como dizia o filósofo Sócrates – explicado por Platão – a Alcibíades: sofremos de uma dupla ignorância, porque não só ignoramos as coisas mais importantes como, ignorando-as completamente, pensamos sabê-las.

Hoje explicaríamos a Sócrates filósofo que a nossa dupla ignorância tem dois rostos dissemelhantes: um é aquele que ignora mas quer saber, parte para novas descobertas, faz o investigador que é o mais sábio dos coscuvilheiros. O outro, é o resto da ignorância que não liberta, que não nos conduz à liberdade. É esta a ignorância que aprisiona e mata. Talvez uma seja afinal, a do ignorante, a outra a do imbecil. Uma procura curas e soluções e um mundo melhor; a outra é o pior dos mundos que constrói com a sua pequenez reiterada. Uma estuda; a outra quer nota positiva sem fazer o curso.

O motor de todos os progressos tosse quando apanha na engrenagem a multidão que o danifica. Creio eu que havendo museus na Internet poucos são aqueles que os visitam.

Eduardo  Lourenço escreveu que “a arte é a transposição objetiva da angústia (ou o desvio consciente da impotência total do ser humano)”.  Dias de ócio produzem-me pensamentos assim, leituras como estas, entre a angústia e a impotência e com um enorme bocejo que logo se esvaí, trocado por novas interrogações desejosas de novas descobertas.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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