22 MAR 2017|CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

Houve muitos pormenores que ficaram por escrever na minha coluna da semana passada, onde resolvi evocar João de Barros, pedagogo do início do século XX e sobretudo da I República. Acrescentarei por isso, hoje, algumas linhas.

O ano de 1917 é o que me tem mantido atento a esse período singular da história portuguesa – o ano em que mandámos tropas para a frente europeia de guerra respondendo a apelos entusiasmados como os de João de Barros que, como tantos outros, viam no conflito uma saída menos ideológica e mais utópica, mesmo messiânica para a promoção dos povos – e da sua jovem república que precisava muito de se afirmar aquém e além fronteiras. Um ano que acabaria traído pela Ditadura, com o golpe de estado sangrento do major Sidónio Pais, que desdenhando a democracia cortou um percurso que (não sendo exemplar) podia ter impedido os anos negros e vergonhosos que nos esperavam mais adiante.

Não disse na semana passada que João de Barros era o republicano por excelência. O republicano radical, logo anticlerical e liberal. (Por isso gosto dele e de evoca-lo, é claro). Fez parte de uma imensa multidão que partilhava estes valores, atribuindo-se uma missão e vendo na República o topo de uma evolução iniciada em 1820 (e que tinha sido desvirtuada por um sistema de dois partidos únicos, ou quase, o rotativismo, designação dada a um sistema, dentro uma democracia político-partidária, em que apenas dois partidos se tornam mais fortes que os restantes e que caracterizou a monarquia liberal portuguesa durante largo período).

Seria a República, na sua opinião, na opinião de Barros e dos republicanos com ele, o sistema permissivo do exercício da plena cidadania, o sistema da liberdade e da fraternidade e da tolerância recíproca.

Ainda hoje, quando vemos limitados esses valores – e cada vez mais os vemos circunscritos pelo poder e pelo desinteresse, pelo laxismo e falta de cultura dos povos -, constatamos como está em risco a nossa cidadania plena, com as liberdades garantidas e atuais, com a fraternidade como dinâmica e com a tolerância recíproca como prática: sabemos quão ameaçada está a República, isto é, a coisa pública, a causa comum.

Quando ouvimos vozes a lamentarem os excessos de liberdade, a pedirem ordem e progresso, sabemos que pior do que pôr em causa a República é a ameaça de acabar com ela, com um totalitarismo qualquer, pois os rostos fascistas têm várias máscaras.

É muito difícil extrair o obscurantismo ao passado, iluminando-o com novas ideias.

É frase bem republicana desta época (atribuída a João de Barros): “a liberdade decreta-se; a libertação é do foro das consciências”.

Vemos no século XX como as consciências estão presas. Como votam à direita, como reclamam algemas, como querem limitar-se dentro das celas da existência que muitas vezes são os próprios que promovem, não sabendo depois como sair delas.

O lado pedagógico de João de Barros assentava numa metodologia de paciência. A missão é educar – e isso cumpre-se ou deve cumprir-se todos os dias. É um lado utópico, mas sobretudo de empenhamento ideológico libertador.

A ideia de uma cultura militante era tão intensa que para a construção dos jardins-escola, peça preciosa da República, os métodos foram inusitados: “até os rapazes do Orfeão Académico, dirigidos por António Joyce, cantavam por todo o País para angariação de fundos para a edificação do projeto!”

Não falo de outros pedagogos, pelo menos por agora, como António Sérgio ou Faria de Vasconcelos, pedagogos de outras vias de ação igualmente eficazes, expressivas e democráticas, mas sublinho a importância e o valor da educação cívica na construção das democracias.

Tivemos mulheres e homens exemplares que nos provaram isso. E se hoje não os seguimos será apenas porque alguém quis arredá-los da história – para que ficássemos fracos e mal educados.

 

Alexandre Honrado

Historiador

Pub

Achou este artigo interessante, partilhe-o com os seus amigos!

VISITE TAMBÉM A PRIMEIRA PÁGINA DO JORNAL DE MAFRA

Partilhe com os seus amigos!