4 JAN 2017 | CRÓNICA| ALEXANDRE HONRADO

 Primeiras reflexões de novo ano
Crónica de Alexandre Honrado

De um modo muito simplificado, aceitamos que de uma cultura da modernidade tenha emergido outra cultura, dita da pós-modernidade (assim lhe chamou Jean-François Lyotard no ano pródigo de 1979, o mesmo ano que nos deu coisas como esse pensamento e a sangrenta revolução iraniana). Desta segunda etapa cultural, que releva da progressão civilizacional humana, nascemos nós, pobres órfãos de ideias, de crenças, de justiça e de valores.

Ao espelho, somos criaturinhas. Temos pouca cultura essencial, falta-nos o pensamento e também, os filósofos, sobra-nos muita violência e pouca agressividade assertiva. Em suma, fizemos triunfar a cultura do impuro, na incapacidade de apurar quaisquer formas de ser, isto é, de pensar, sentir e agir o homem em pleno.

No século XIX vingaram como ideologia as ideias do liberalismo, do nacionalismo e do marxismo – as grandes marcas da modernidade que tenderam a acreditar que a ciência e o poder dominador do homem seriam a base de sustento para um futuro mais feliz e mais digno, isto é, a crença numa utopia de um mundo humano (logo, livre e feliz).
Entre outras caminhadas, houve quem contasse os passos para esse mundo melhor usando a escada dos radicalismos, o que é uma profunda contradição. Entendeu-se ver em modelos musculados e ditatoriais a alavanca para essas conquistas de felicidade. Pensou-se no conflito como motor do mundo melhor.

O primeiro grande erro chamou-se Primeira Guerra Mundial – que desfez na prática o que restava das Luzes, da Ilustração, do Iluminismo – traduzindo a crise de cultura no grande cemitério do mundo. As ilusões eram agora cinzas, ruínas, uma geração perdida e enterrada, o retrocesso na progressão do homem que se tinha, muito recentemente, libertado de grilhetas insensatas.

Finda a guerra, a crise de cultura humana (e pelo humano) está num dos seus auges. E o que é mais espantoso e original é que quase toda a intelectualidade – pela primeira vez na História – converge no mesmo pensamento: o Homem está em crise.

Poucos anos antes, Nietzsche fizera vibrar as consciências ao proclamar a morte de Deus (apontando como morrera nos homens, progressivamente). Mas a pós-modernidade, o nosso berço, traz-nos uma catástrofe ainda mais intensa: a morte do Homem. Sob o ponto de vista da cultura, essa é uma morte por esmagamento: a razão, o progresso, as grandes visões de sentido (ideologias, filosofias totalizadas, religião) esmagaram o Homem e ofereceram-nos um mundo de ideais fracassados e mitos desconstruídos.

Os filósofos do impuro, os não alinhados, vão batizando o que vêem neste mundo: Vattimo chama-lhe pensamento débil; Derrida, a desconstrução; Lyotard, jogos linguísticos. Não há, em ninguém, em nenhum grupo, em nenhum ponto de encontro social a tentativa unificadora (racionalista, científica ou espiritual) capaz de agregar um novo mundo. E se depois da Primeira Guerra houve uma unanimidade na constatação da crise, cedo se perdeu o rumo das vidas enlutadas.

Povos desorientados pedem sempre que alguém os domine e escravize e assim, em nome de uma ordem e de um progresso – e daquela frase que ficou tristemente na memória, erguida em ferro forjado sobre o portão de entrada de Auschwitz, Arbeit macht frei, ou seja, o trabalho liberta – surge a segunda Guerra Mundial, e os regimes mais hediondos da história do mundo (sob Salazar, Franco, Mussolini, Hitler, Estaline, Mátyás Rákosi, Nicolae Ceauşescu, Mao Tse Tung, Pinochet, Muammar al-Gaddafi, Hosni Mubarak, Saddam Hussein, Fidel Castro, Saloth Sar, também conhecido como Pol Pot ou Minh Hai, Mulá Oma, Bin Laden, Abu Bakr al-Baghdadi, Abubakar Shekau – e tantos outros ) vão, todos sem exceção, sair desta única matriz.

A recusa da aceitação do homem livre, da afirmação da autonomia absoluta do Homem, ditou esses excessos e os seus excessivos protagonistas.

Têm-me dito que, em alguns artigos que escrevo e ao contrário do que é meu hábito, não concluo o que digo com palavras de esperança e também eu, na linha dos velhos derrotados, estarei a cultivar o pessimismo – tão inimigo da esperança e tão parente de um messianismo qualquer, isto é, de uma solução para a angústia diagnosticada.

O homem tem resistido sempre – e triunfado naquilo que tem de melhor. Se as crises o levam a ficar nas mãos daqueles que não o respeitam, sendo servo, escravo, ou débil indiferente, ele é o primeiro a reunir-se com os seus iguais e cerrar fileiras. A libertar-se. A revolucionar. A traduzir utopias em novos espaços e novas afetividades, fazendo da primitiva utopia extraordinária nova realidade O homem como centro – que no melhor do antropocentrismo, do cristianismo, do marxismo, do idealismo, do existencialismo tanto sobressaem – tem mais futuro que o homem fundamentalista, esse “não lugar” da espécie humana, incapaz de gerar-se como continuidade, proximidade e pluralidade.

Acredito nisto. E isto é ser esperança.

Alexandre Honrado

Historiador

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