17 MAI 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

O Sangue Velho dos Avós

 

Dizem-me que a marca Portugal tem-se valorizado muito nos últimos dois anos, prova de que vamos mais seguros com uma geringonça – como os nossos antepassados naquelas naus irrequietas – no que nas mãos de maus condutores que nos ofereciam garrotes em nome de mercados falidos pelos seus parentes pouco hábeis. E que essa marca se reforça em coisas como as exportações, do vinho às cantigas, da formiga à cigarra, da mão de obra aos acordes da cantiga simples e acolhedora. Como sou de outras convicções, ou melhor, formações, quer ressuscitar um texto que sendo meu já andou em vários formatos por várias montras. Porque rever-me nele é acreditar que não abdico. Sou português aqui e agora, com sangue velho de avós e um sorriso novo sempre pronto.
A marca Portugal começou com D. Afonso Henriques, mantendo-se até aos nossos dias com algum desgaste mas de uma solidez surpreendente.A marca! É ela que cria valor para o consumidor e para a empresa. Enquanto o produto é coisa fabricada em fábrica, a marca é qualquer coisa que motiva a compra pelo consumidor. Não por acaso, associamos signos, formas, cores e mesmo sons, em alguns casos, às marcas. As representações dos monarcas – com os seus escudos e insígnias, os seus ceptros, coroas, bandeiras, brasões, selos, anéis, hinos… – constroem essa identidade física da marca, num conjunto que exige coerência e que serve para concentrar a atenção, ao mesmo tempo que facilita a identificação, promove a atribuição e estabelece o poder da marca. Os ingleses usam o termo brand para falar de marca; os franceses brandon.
A origem está no termo que designa o ferro que marca o gado. Afonso Henriques, um dos nossos maiores empreendedores, marcou a ferros a identidade nacional e fez nascer um território construindo entre fronteiras progressivas a sua notoriedade, estabelecendo solidamente a sua legitimidade e fazendo vingar estratégias militares e políticas de impacto indiscutível: carácter, território e valores consolidaram a identidade psicológica da marca Portugal, assinada pelo nosso primeiro rei.
Afonso Henriques inscreveu um reino na sua própria acção – consolidando um produto ( Portugal ) de uma forma quase ilegível, mas conseguindo a autenticação da sua origem, à força de batalhas – nos terrenos de combate das guerras armadas e da diplomacia, que não foi então menos violenta. Ao ser reconhecido pelo Papa – e após a assinatura da bula Manifestus Probatum, emitida pelo Papa Alexandre III, em 1179, que declara o Condado Portucalense independente do Reino de Leão e Afonso Henriques, o seu rei – , a marca local tornou-se marca global legitimada.
Como bom empreendedor, Afonso Henriques acreditou na qualidade do produto e nas suas vantagens em relação aos concorrentes. De uma ambição fez uma parcela de terra independente – e desta parcela um reino que resistiu no tempo. Não esquecemos, obviamente, os antecedentes. A reconquista cristã dos territórios ocupados pelos árabes – após 711, com a invasão da Península Ibérica, por Tariq ibn Ziyad, o general Omíada que combateu os visigodos, e tudo o que se lhe seguiu em matéria política e geográfica – tinha sido iniciada no século IX com grande intensidade. Isso gerara uma divisão do reino de Leão em quatro grandes zonas administrativas – Astúrias, Leão, Galiza e Castela –  e a confiança dada pelo rei a condes ( os comes ) – na tradição romana e visigótica – para o governo local desses territórios. Alguns desses condes, com mais dimensão e poder, os duques ( os dux ) pareciam dotados de ambições maiores. Neste quadro de ação, vemos o aparecimento de uma unidade territorial coerente, mediada pelos rios Lima e Douro, onde um dux se estabelece, rodeado por uma nobreza empreendedora ( os ricos-homens ), secundados por famílias menos poderosas ( as dos infanções ). Essas famílias tinham ocupado terras de persúria, termo latino que significa prender ou apoderar-se, isto é, terras que depois da vitória cristã foram deixadas sem ocupante legítimo e das quais os cristãos se apoderavam sem problema. Nasce nesse espaço entre Lima e Douro o Condado Portucalense. É aí que se instala um poderoso proprietário galego, Diogo Fernandes, que criará a dinastia dos Mendes e o primeiro núcleo político de Portugal. Todavia, a derrota de Afonso VI o Bravo, rei de Leão e de Castela. contra os almorávidas, em 1086, fez mudar o rumo dos acontecimentos. Afonso VI precisa de reforçar os laços com os príncipes do Norte da Europa e casa a sua filha – e sua legítima herdeira -, D. Urraca, com Raimundo da Borgonha, dando ao genro o governo da Galiza, e os condados de Portucale e de Coimbra. Mas era um território vasto, pelo que Afonso decidiu dar ao outro genro ( Henrique, casado com Teresa, ou Tarasia, sua filha bastarda ) o governo dos condados de Portucale e de Coimbra.
Afonso Henriques, filho de Henrique e de Teresa, vai beneficiar de um conjunto de circunstâncias favoráveis, ao nível político local e periférico, demonstrando grande empreendorismo e capacidade de acção, traduzindo esse momento favorável em sucessivas vitórias militares, diplomáticas e sociais. Consagra a independência do Condado e aumenta a sua dimensão geográfica para sul sobre os reinos de taifa. As taifas ibéricas chegaram a ser trinta e nove pequenos reinos; após o enfraquecimento dos almorávidas e dos almóadas, surgiram os chamados segundos (1144 e 1170) e terceiros Reinos de Taifas (século XIII).
Afonso Henriques conseguiu importantes vitórias militares sobre esses reinos e sobretudo soube explorar com grande habilidade a degradação da monarquia castelo-leonesa.
Quando passamos à análise histórica, constatamos que uma certa  debilidade paira sempre sobre o rigor do que se conta, ficando as dúvidas até que as fontes sejam confirmadas. O levantar da poeira do tempo pode levar séculos a conseguir-se, parecendo adiar a verdade, ad aeternum em alguns casos, como é sabido. Ainda hoje, sobre a figura fundamental de D.Afonso Henriques, cruzam-se a incerteza, a especulação e as contradições (até ver) irresolúveis, degladiando-se os historiadores e sobretudo as correntes da historiografia produzida numa matéria que devia ser consensual, dir-se-ia mesmo nacional e inequívoca. Acresce sobre o inventário biográfico do primeiro Rei de Portugal visões esotéricas e especulativas – há quem veja nele o iniciador de um Novo Ciclo Teúrgico no Ocidente, de expansionismo cultural e iniciático através da ligação das tradições Cristã e Cátara com a casta Moura (Morya, Mariz, Maria, Mareum…), vanguarda esotérica do Islamismo, a linha Sufi, com o objectivo de, a partir de Portugal, instaurar a Sinarquia dos Povos no Ocidente medieval e daqui alastrá-la ao Oriente. Assim sendo,  Afonso Henriques, ou El Rike, Guerreiro e Sacerdote da Ordem do Prestes ou Pai João ou, ainda, de Melkitsedek, teria chamado a si todas as Ordens Iniciáticas da Península Ibérica, inclusive Ramas do Sacerdócio Sufi, e fundado à margem do papado romano, cuja autoridade não reconhecia, a Ordem de Aviz, cuja vanguarda foi a Ordem de S. Miguel da Ala. A última polémica, não menos cativante e mobilizadora, gira em torno da sua cidade natal, até há pouco aceite como sendo a de Guimarães, que alguns pensam ter sido Viseu, gerando-se uma discussão menos rentável, já que carecemos de provas num ou noutro sentido.
A verdade é que o nosso primeiro grande empreendedor tem uma biografia polémica, mesmo sem a carga mística que alguns lhe impõem. Não se sabe ao certo a data do seu nascimento – coisa não rara para a época – , apontando-se como melhor hipótese o ano de 1109. Como local de nascimento, apontam-se as cidades de Guimarães (a versão mais popularizada) , Coimbra (em 1990, o Professor José Hermano Saraiva dirige o Dicionário Enciclopédico de História de Portugal, pelo que erradamente se lhe atribui a ideia ali inscrita onde se coloca a hipótese de Afonso Henriques ter nascido em Coimbra . Esta ideia, assumida no dicionário, será o ponto de partida para uma refutação, em tese do Professor  A. Almeida Fernandes); e, ainda, a cidade de Viseu. O autor que melhor defende ter sido a cidade de Viseu a vê-lo nascer, foi o mesmo A. De Almeida Fernandes (na obra «Viseu, Agosto de 1109, Nasce D. Afonso Henriques », editado no ano de 1993 e reeditado em 2007 pela Fundação Mariana Seixas),  aponta o mês de Agosto como mês de nascimento, com apoios diversos ( cruza os seus estudos com os de José Mattoso, Maria Alegria Fernandes Marques, António Matos Reis, João Silva de Sousa, Bernardo Vasconcellos e Sousa, Avelino de Jesus Costa, Barrilaro Ruas, entre outros,  que subscrevem a sua tese). Construiu então a sua afirmação, dando resposta a uma questão tão simples e tão complexa como a de saber onde residia D. Teresa por alturas do nascimento de seu filho. E concluiu que, no período de Julho a Agosto de 1109, data de nascimento de D. Afonso Henriques, sua mãe residia em Viseu. Assim sendo, o primeiro rei português terá nascido nesta cidade e não em Guimarães ou Coimbra, como então se opinava. Da documentação consultada resulta que Viseu terá sido residência de reis desde a primeira metade do século X, que D.Teresa tinha uma predilecção por esta cidade, como é comprovado pelas muitas doações que fez aos homens de Viseu, pelas cartas de foral que concedeu aos concelhos à volta de Viseu e pelos apoios que aqui conseguiu nas batalhas que teve de travar com seu filho. Há ainda documentação que comprova a ausência de D. Teresa no funeral de seu pai e, mais ainda, na exéquias fúnebres, impedida de se deslocar em viagem, devido ao seu estado de avançada gravidez. D. Henrique, nesse ano de 1109, lutava contra os sarracenos e tomara-lhes o castelo de Sintra. A 29 de Julho já se encontrava em Coimbra, e aqui preside, na catedral, à cerimónia de outorga à cidade do mosteiro de Lorvão. D. Teresa, não esteve presente nesse ato, como era sua obrigação. Encontrava-se em Viseu, no paço, para onde se dirigiu D. Henrique, após a cerimónia de concessão do mosteiro de Lorvão.).

(Continua)

Alexandre Honrado
Historiador

 

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