17 MAI 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

O Sangue Velho dos Avós (Continuação)

 

Há autores que, baseando-se em documentos que remontam ao século XIII, referem como data de nascimento o dia 25 de Julho do mesmo ano. Algumas histórias, menos factuais e mais lendárias, sugerem que Afonso Henriques tenha sido filho de um rico-homem portucalense, da linhagem dos Riba Douro, uma das cinco grandes famílias do Entre-Douro-e-Minho condal do século XII, o seu aio, Egas Moniz e de sua mulher D. Dórdia Pais de Azevedo – e não de Teresa e Henrique. Muito débil e doente à nascença, Afonso Henriques teria, de acordo com esta possibilidade, sido trocado pelo filho da mesma idade (criança robusta e forte) do aio, que assim salvaria a continuidade do condado.
Parece sem discussão a data da sua morte: 6 de Dezembro de 1185 – o que o torna homem de longevidade excepcional, para a época. Esta longevidade foi determinante para concretizar os seus objectivos: morreu com 77 anos, com mais de 57 anos de governação. Sob o ponto de vista do empreendedor que foi, essa estabilidade permitiu-lhe apurar objectivos, melhorar desempenhos, estabilizar conquistas e criar estratégias aplicáveis e concretizadas a longo prazo.
Afonso Henriques conquista a independência portuguesa no Tratado de Zamora. Fá-lo em relação ao Reino de Leão – no ano de 1143.  Sem grande relação com o papa, mas por razões estratégicas evidentes – queria libertar-se completamente da soberania de Afonso VII que chegara entretanto ao poder, Afonso declara-se vassalo da Santa Sé – o que lhe garante não ter assim mais nenhuma dependência de poder civil ou eclesiástico. O preço da vassalagem é relativamente elevado: Afonso Henriques promete pagar a Roma quatro onças de outro, todos os anos.  O papa em questão, Inocêncio II, não querendo desagradar a ninguém, aceitou a vassalgem sob reservas: concedeu apenas a D.Afonso Henriques o título de dux portugalensis e a Portugal o nome de terra.  Isto, embora pouco para as ambições de Afonso Henriques, vai permitir-lhe alargar a fronteira do reino para sul – aos confrontos com os árabes somam-se os confrontos com os herdeiros de Afonso VII, que lhe negavam o direito de conquista. A Santa Sé só mudará de atitude 35 anos depois: em 1179, já tinha morrido há muito Afonso VII e os seus territórios estavam já divididos pelos seus dois filhos. Só então, o papa Alexandre III acede, por bula de 23 de Maio e a troco de um elevadíssimo tributo anual, conferir a D. Afonso Henriques título de rei e de reino a Portugal. Acrescia que pela mesma bula, Afonso Henriques ficava com o direito de conquistar aos mouros as terras sobre as quais os outros príncipes cristãos não possuíssem direitos anteriores.  À independência política seguiu-se o reconhecimento efetivo de uma província arquiepiscopal que coincidia com os limites do reino de Portugal, subtraindo-a para sempre à primazia de Toledo, que dela se arrogara sobre toda a Espanha desde os reis visigodos. D. Afonso Henriques fez assim do arcebispo de Braga um dos seus principais apoios. Graças à reconquista, cumulou de bens o clero, particularmente os cistercenses de Alcobaça e as novas ordens militares do Hospital e do Templo. Aqui há que referir que as ligações a Borgonha eram evidentes: D. Henrique, um aristocrata, conde da Borgonha deixou um grande legado cultural a seu filho Afonso Henriques, onde se cruzam algumas evidências. A Ordem de Cister – com a de Cluny, também de origem borgonhesa – que vai estar sete séculos em Porttugal, nascera com Bernardo de Claraval, na Borgonha. Claraval será um grande ideólogo e estará na origem da Ordem do Templo ou dos Templários ( e na redacção da sua Regra ), sendo amigo do primeiro grão-mestre, Hugo de Payns, que sairá da Borgonha para a Terra Santa. Afonso Henriques vai declarar-se “irmão da Ordem do Templo” , em documentos oficiais. E o grão-mestre templário Gualdim Paes será uma figura fundamentais da mesma Ordem, que desempenha um papel militar importante na época (a Ordem do Templo, a primeira de monges-cavaleiros, ficará em Portugal até ao reinado de D.Dinis. Com a sua extinção será absorvida pela nova Ordem de Cristo, criada no século XIV).
A carreira exemplar de D. Afonso Henriques sofre um dissabor decisivo quando cerca Badajoz, sob o desejo de conquistar a cidade para Portugal. Entre 1166 a 1168, D. Afonso Henriques apoderara-se de várias praças pertencentes à coroa leonesa.  Entrou pela Galiza, tomou Tui e vários outros castelos, e em 1169 atacou Cáceres. Voltou-se depois contra Badajoz ( na posse dos sarracenos, mas que pertenceria a Leão, conforme o acordado no tratado de Sahagún assinado em 1170, entre Afonso VIII de Castela e Afonso I de Portugal). Quando os muçulmanos já estavam cercados na alcáçova, Fernando de Leão apresentou-se com as suas hostes e atacou D. Afonso nas ruas da cidade. Percebendo a impossibilidade de manter a luta, Afonso terá tentado fugir a cavalo, mas ao passar pelas portas ter-se-á ferido na coxa contra um dos ferros que a guarneciam. ( Também aqui os autores se dividem, falando de ferimento em luta contra o inimigo, em acidente ocorrido na fuga e Jean-François Labourdette – cf. bibliografia – fala não só em ferimento como em perda da perna em combate. A verdade é que a energia de Afonso Henriques esmorece a partir daí, abandona a sua carreira militar, e em 1170, associa o seu filho Sancho aos negócios da coroa ( assim ficando durante quinze anos, até à morte do pai ). Afonso é feito prisioneiro – é tratado pelo rei D. Fernando II, seu genro, pois casara com a filha de Afonso Henriques, Urraca).
A  campanha teve como resultado um tratado de paz entre os reinos, assinado em Pontevedra, em virtude do qual Afonso foi libertado, com a única condição de devolver a Fernando cidades extremenhas (da Extremadura espanhola) tais como Cáceres, Badajoz, Trujillo, Santa Cruz, Monfragüe e Montánchez, que havia conquistado a Leão. Estabeleciam-se assim as fronteiras de Portugal com Leão e a Galiza. E mais tarde, quando os muçulmanos sitiaram Santarém, o leonês auxiliou imediatamente o rei português.
Sob o ponto de vista da Administração interna, os exemplos de empreendorismo não faltam: procurou fixar a população, promoveu o municipalismo e concedeu forais. Contou com a ajuda da ordem religiosa dos cistercienses para o desenvolvimento da economia, predominantemente agrária. O reinado de Afonso Henriques ficou marcado pela tolerância para com os judeus,  organizados num sistema próprio, representados politicamente pelo grão-rabino nomeado pelo rei ( o grão-rabino Yahia Ben Yahia foi mesmo escolhido para ministro das Finanças de Afonso Henriques, responsável pela coleta de impostos no reino. Com esta escolha teve início uma tradição de escolher judeus para a área financeira e de manter um bom entendimento com as comunidades judaicas, que foi seguida por seus sucessores ).
O túmulo do nosso primeiro Rei encontra-se no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, ao lado do túmulo do seu filho D. Sancho I.                                                        A marca que criou continua, orgulhosa: PORTUGAL.

 

BIBLIOGRAFIA
FERNANDES, A. de Almeida, Viseu, Agosto de 1109 – nasce D. Afonso Henriques, Viseu, 2007
HONRADO, Alexandre, Isabel de Aragão, a Rainha dos Templários, Lisboa, 2009
LABOURDETTE, Jean-François, História de Portugal, Lisboa, 2003
MATTOSO, José, Portugal Medieval, novas interpretações, Lisboa, 1985
______________Ricos-Homens, Infanções e Cavaleiros, A nobreza medieval portuguesa nos séculos XI e XII, Lisboa, 1982
______________ A Nobreza Medieval Portuguesa, A Família e o Poder, Lisboa,1987
SARAIVA, José Hermano, Dicionário Enciclopédico de História de Portugal, Lisboa
SUCENA, Eduardo, A epopeia templária e Portugal, Lisboa, 2008

Alexandre Honrado
Historiador

 

 

Pub

Achou este artigo interessante, partilhe-o com os seus amigos!

VISITE TAMBÉM A PRIMEIRA PÁGINA DO JORNAL DE MAFRA

Partilhe com os seus amigos!