12 JUL 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

O pequeno almoço daqui a 500 anos

 

Em grande festa, dessas que dispensam convites e fato de gala, diante de uma mesa de fazer inveja, pois hoje levar comida à mesa é de louvar, tomava eu o pequeno almoço entre pródiga conversa – que cedo resvalou para raciocínios engraçados.

Perante um pedaço de pão a endurecer – fenómeno recorrente, nada de mais, hoje muito comum, não sei se já repararam – começou-se a falar do que se comeria na época das grandes navegações. O que levariam os portugueses dos Descobrimentos para comer, nos séculos XVI e XVII? As frases feitas sucederam-se como a que dá sempre conta de que três em cada dez navios não voltavam a casa, até porque todos os inimigos, a começar pelos que a Natureza tem sempre para nós e com os quais os políticos aproveitam para ganhar alguns votos, todos os inimigos se atravessavam na rota.

Naufrágios, doenças, fome e ataques (de piratas e dos habitantes das terras onde desembarcavam) – e também a falta de qualidade ou de estado de conservação daquilo que comiam, estão hoje inventariados na lista desses inimigos.

Afonso X (1221-1284), o Sábio, rei de Castela e Leão, aconselhava os seus marinheiros: “devem levar comida variada, assim como o biscoito, que não é um pão muito claro, mas que dura mais do que os outros, e não se estraga com facilidade; e carne e salada e legumes e queijo que são coisas que mesmo em pouco governam muitos”.

Quando acordavam, os navegadores almoçavam, uma refeição forte, a principal do dia. Depois, tudo era racionado, a começar pela água – que todos, independentemente do seu posto, recebiam por igual.

Conhecemos a ração a bordo das naus de Pedro Álvares Cabral, composta de 15 quilos de carne salgada para cada marinheiro por mês, cebola, vinagre e azeite.

Os “biscoitos” duros e salgados eram a base do sustento (cada tripulante recebia uma libra por dia, isto é, quase meio quilo). Também recebiam por dia quase litro e meio de vinho tinto e a mesma quantidade de água. A água tinha de servir não só para beber como para higiene pessoal e para cozinhar os alimentos.

Repito que vinho e água eram distribuídos pela mesma medida.

A par com os “biscoitos”, a ementa incluía derivados secos de animais, salgados ou defumados, peixes salgados, toucinho, enchidos,  compotas, marmeladas e conservas de azeitonas e azeite. Mel, vinho, água, os cereais e leguminosas secos (arroz, lentilhas, grão de bico) e castanhas encontram-se nos inventários. Não havia dietista a bordo, garanto.

Na ausência da vitamina C, fornecida pela fruta (como a laranja), dava-se a ocorrência do escorbuto doença que tem como primeiros sintomas hemorragias nas gengivas, tumefação purulenta das gengivas (inchaço com pus), dores nas articulações, feridas que não cicatrizam, além de desestabilização dos dentes.

Os marinheiros ficavam doentes por que consumiam biscoitos e carnes salgadas, ficando longos períodos sem ingerir verduras ou frutas frescas.

Vasco da Gama (1469-1523) relatou que na sua viagem à Índia em 1498, metade da tripulação foi acometida pela doença e 54 marinheiros morreram. Apenas em 1777, o médico britânico Jacob Lind (1716-1794) descobriu a eficiência do limão para combater o mal.

Por exiguidade de espaço, os navios não tinham condições de levar todos os víveres que necessitavam. Era carregado nos navios, geralmente o seguinte:

Água em barris de madeira; vinagre em barris de madeira; vinho tinto com alto teor alcoólico e uvas passas (para fazer vinho, se faltasse); azeite de oliva. toucinho, com o qual se cozinhava a maioria dos pratos de panela; conservas (como azeitonas e marmeladas); queijo curado; mel; arroz; temperos e ervas aromáticas, como réstias de alho; cebolas; frutos secos (damascos, figos, ameixas, amêndoas, avelãs e nozes); biscoitos duros e salgados; grão de bico; lentilhas; feijão; sardinhas e anchovas salgadas; bacalhau seco; carne de boi salgada e seca; carne de porco cozida e guardada na banha.

Também eram embarcados nas naus animais vivos como vacas, ovinos, caprinos, suínos e galinhas, para ter leite e ovos e carne fresca de vez em quando, durante a viagem.

Sabemos que Fernão de Magalhães (1480-1521), navegador português ao serviço de Espanha, e que empreendeu a primeira viagem de circunavegação do mundo, tinha a bordo víveres para dois anos de viagem: biscoito, vinho, azeite de oliva, vinagre, peixe seco, toucinho, feijão, grão de bico, lentilhas, farinha, alho, queijo, mel, figos, açúcar, marmelada, alcaparras, mostarda, sal, arroz e carnes secas de boi e de porco.

A conversa ao pequeno almoço que declarava que mal deviam comer e viver nessa altura, com o raciocínio confuso de uma suposição: como será um pequeno almoço à nossa moda daqui a 500 anos? E quem o tomar não dirá: que mal deviam comer as criaturas de 2017?

Alexandre Honrado

Historiador

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