28 JUN 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

O FIM DAS HISTÓRIAS

 

Aprendi com o Professor George Steiner – Professor universitário em Genebra e em Cambridge – que todas as produções humanas são portadoras de uma história –  história essa cujos primórdios continham já em germe a possibilidade ou a eventualidade de um fim.

Aceitar este raciocínio, a vários títulos agitador mas apesar de tudo pacífico, fez-me sempre acreditar que somos heranças de narratologias, de tendências longas de conto partilhado, onde radicam os nossos mitos fundadores, os nossos mitos em geral, o nosso imaginário e a nossa realidade (individual e coletiva), as nossas crenças, as nossas simbologias, as nossas utopias, as nossas ideologias, a nossa decepção (poço profundo para onde andamos atirando as nossas ancestralidades que deixámos de reconhecer).

Se não nos afirmarmos por uma história, mesmo aquela muito básica de que nascemos, crescemos e andamos a tentar inventar alguma coisa que nos distinga como seres, seremos um não lugar, um vão, um buraco com algumas características biológicas que não serão mais do que a frustração de existir.

Uma história – o meu reino por uma história!

Uma vontade de contar e recontar, um aconchego. Um orgulho do que fomos, uma pacificação do que somos, uma esperança no que seremos.

O princípio vez sempre meio feito. Basta acreditar que Era uma Vez.  Obviamente que aqueles que se embrenham nas dúvidas filosóficas, terão de debater com intensidade se Era realmente. E só uma vez? E se não fosse? E se a vez nunca tivesse sido, mas em seu lugar um circuito contínuo gerasse o infinito, o nada, o buraco negro, o fascínio de não ser?

Será que realmente todas as produções humanas são portadoras de uma história? Ou será que todas as produções humanas andam a teimar o esquecer das histórias de que são portadoras?  O Alzheimer é uma das doenças do últimos anos, simbolicamente apegada ao esquecimento.

O maior fascínio – e creio que Steiner me compreende – é a dúvida. É esta capacidade de me por aqui a interrogar. A querer que eu, enquanto produção humana e agente humano, seja uma história parte de histórias, inquietação geradora de muitos passos ainda por cumprir.

Todas as histórias, sabemo-lo, caminham para o seu fim.

Desiluda-se quem, por pessimismo, considera que o fim é um local fechado, sem continuidade, o terminal das aventuras. É que nas histórias – e na História – há o fim fechado, claro (morreu, acabou, finou-se, cumpriu-se no ponto final), mas há de igual modo o o fim aberto – que nos deixa a meditar, a pairar, a cumprir um tempo para lá do tempo, a ser o ar na confluência das nuvens, as nuvens no contar individual de cada gota de água que as forma.

Até há pouco tempo, nas universidades, estudava-se o melhor das narrativas. Porque é que estes povos, estas pessoas, estas exceções tinham chegado tão longe na arquitetura de uma história. Agora, o que nos ocupa também é o estádio mediano, o banal – que nunca é comum. A incapacidade, por opção, que os povos parecem querer para si: uma existência sem redutos, sem memória, sem histórias que os componham.

As novas sociedades complexas têm as paredes como pele e a pele como parede. Escrevem-se e simbolizam-se às claras. No muro e no corpo – e o corpo por vezes é o muro, o maior de todos. Mas contam, mesmo assim, poucas histórias – talvez pelo esgotamento que lhes trouxe a ilusão ingénua de as julgarem já contadas.

Alexandre Honrado

Historiador

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