15 MAR 2017| CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

JOÃO DE  BARROS
CONVÉM NÃO ESQUECER QUEM SE LEMBROU DE NÓS

Por Alexandre Honrado

Há cem anos, em 1917, os intelectuais portugueses não só aplaudiam a participação de Portugal na guerra como seguiam para a frente de batalha, voluntários, juntando prática à teoria e interpretando o espírito do intelectual comprometido – em moda na época e que voltará, anos depois, já no pós-guerra, na década de 1960 e70, com uma dimensão filosófica contagiante, humanista e existencialista e sobretudo pacifista.

Procurando nos velhos baús da época, descubro um nome que, cem anos atrás, a muitos títulos não devia hoje ser esquecido: João de Barros, intelectual republicano de primeira linha, homónimo aliás de um quinhentista que foi considerado como primeiro grande historiador português.

Este João de Barros da I República, foi um republicano, um intelectual comprometido, um defensor da ideia, então progressista, da intervenção militar portuguesa na I Guerra Mundial, espírito que aliás interpretou ao apelar publicamente, desafiando outros intelectuais como ele, a oferecerem-se para o apelo da (então assim entendida) transformação do mundo.

João de Barros, republicano, é um pedagogo que podíamos classificar como um missionário da República e um entusiasta da forma democrática de viver, aprendendo. Por isso mesmo dar-se-ia mal com o Estado Novo, Salazar e o tacanho exercício da censura do estado salazarista que impedia o progresso e cultivava o lado pequeno das ideias. Tanto mais porque o ideal republicano esteve longe de ser um mero capítulo político, uma alternativa política à monarquia e às suas limitações enquanto coisa não pública. O ideal republicano pretendia ir mais longe: reformar e formar; preparar e tornar aptos os cidadãos para o pleno exercício da cidadania. Por assim dizer: mais do que uma ideologia era a tradução de uma utopia.

João de Barros – com João de Deus Ramos e outros – é a encarnação dessa utopia. Aliás, Barros e Ramos associaram-se numa cruzada inédita: a criação da Associação de Escolas Móveis (pelo método João de Deus, pai de João de Deus Ramos e autor da Cartilha Maternal ), de Bibliotecas Ambulantes (é certo que, mais tarde, inspirada em modelos não nacionais, a Fundação Gulbenkian faria o mesmo, trazendo ao país os títulos possíveis já que a censura do Estado Novo só permitia a circulação de poucas centenas de obras, previamente aprovadas que, normalmente, estavam encerradas, mesmo assim, em bibliotecas onde os livros pareciam pequenos prisioneiros sem esperança, fechados à chave em vitrinas ou prateleiras separadas por redes metálicas dos seus ávidos utentes) . As bibliotecas republicanas chegaram a estar na frente de guerra entre os soldados portugueses do Corpo Expedicionário, e, é claro, neste movimento pedagógico, o lugar mais intenso foi ocupado pelos Jardins-Escola, uma das mais notáveis realizações pedagógicas republicanas, de matriz portuguesa.

Escreveu João de Barros, com Veiga Simões, em A Escola de Coimbra, logo em 1910: “ João de Deus Ramos, concretizando enfim, entre a desorganização e a desnacionalização do nosso ensino, um ideal bem nosso, guiou e canalizou para a propaganda da obra mais perfeita de educação que em Portugal se podia fazer a vida social da sua geração – que o respeita como a um irmão mais velho, que o ama como ao camarada mais querido, porque ele deu, às nossas energias, ávidas de trabalho por uma pátria melhor, o mais elevado e o mais útil motivo de viver e de intensificar-se”.

João de Barros, pedagogo republicano e poeta nasceu na Figueira da Foz em 1881, formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Foi professor de Português e Francês em vários liceus: Coimbra, Porto e Lisboa, mas distinguiu-se, sobretudo, como pedagogo associado ao movimento da Escola Nova e às reformas republicanas da Educação. Militante do Partido Republicano Português desempenhou papel ativo nas frentes que assim o exigiam, entre 1910 e 1926. Afastado da vida política pela Ditadura, instituída na sequência do golpe militar de 1926, e pelo Estado Novo de Oliveira Salazar, manteve-se, no entanto, toda a vida fiel aos princípios republicanos e democráticos. Participou em várias manifestações da Oposição. Em 1945, aderiu ao Movimento de Unidade Democrática. Apoiou as candidaturas à Presidência da República de Norton de Matos e Humberto Delgado. A partir de 1952, no Diário de Lisboa, tanto quanto lhe foi permitido pela Censura, continuou a sua doutrinação pedagógica em prol da educação como factor de progresso social e civilizacional. Morreu em Lisboa a 25 de Outubro de 1960.

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