7 JUN 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

Entre Bujardas e Bojardas

 

Ocorre-me que um dos mais preciosos auxiliares da História é a palavra. Sem ela nem existia História, pois só assim a consideramos após a invenção da escrita. A palavra não precisa, no entanto, de ficar fixada em nenhum suporte para nos ajudar a compreender quem somos, porque somos, o que nos torna insuficientes ou até eficientes.

Escutadas palavras de gente tida por responsável, da política à comunicação social e às instituições mais variadas, o desânimo é enorme. Lidas palavras nas redes sociais, percebemos coisas assustadoras de tão evidentes: cada vez se escreve pior, cada vez se dá mais erros ortográficos independentemente dos acordos ortográficos, bodes expiatórios dos ignorantes, e cada vez mais se radicalizam os pensamentos que geram as palavras.

Pessoas que julgávamos dignas de algum crédito apelam ao confronto, apontam a violência como caminho, sugerem licença e porte de arma como solução para uma cultura que descamba. Apelam, aos gritos fundamentalistas, para o confronto final, acelerando um final de civilização que sucumbe à falta de palavra.

Há anos, por ironia, escrevia-se nas paredes: estamos fartos de ação, passemos às palavras. E todavia, parece que hoje é mesmo isso que nos falta: passar à palavra que se reveja nos valores que certas palavras ainda sustentam.

Por vezes uma simples letra serve o intento. Vou exemplificar.

Peguei há dias num documento onde se falava de um fabricante de bujardas. Há palavras que são assim mesmo, surpreendentes, e esta trouxe-me um sorriso. É que fabricar bujardas está longe daqueles que hoje fabricam bojardas a seu bel-prazer, e olhem que uma simples letra pode deitar tudo a ganhar – ou a perder. Se forem ao dicionário do Word nos vossos computadores, ele nem conhece uma das duas (bujarda, para o programa de tratamento de texto, é provavelmente mera bojarda).

A saber: bujarda é um martelo de cabeça quadrada, coberta de pontas, usado para alisar pedra. Não deve haver coisa mais importante nos nossos dias do que alisar pedra, talhá-la, afeiçoá-la, aperfeiçoá-la dando-lhe sentido. É que somos como os mais ancestrais calhaus: à espera da bujarda.

Ao confrontar bujarda com bojarda, notamos as dissemelhanças.

Em Itália, por exemplo, qualquer mentiroso, enganador, falaz é um bugiardo, o que nos leva a acreditar que a raiz latina é apenas uma. Mas a distinção que damos a bojarda é muito mais intensa: releva intrujice, mentira, asneira, calinada, parvoíce.

Não sei porque razão, em algumas localidades do mundo latino, há uma espécie de fruta sumarenta, uma pera, a que se chama bojarda, pois então.

A verdade é que como auxiliar da história também estas palavrinhas homófonas são preciosas. E nos intervalos da investigação, bem me apetecia uma bujarda que ajudasse a recompor certas bojardas.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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