5 JUL 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

E por falar em bruxos

 

Há um sabor antigo, acre e poeirento, nos dias que vão correndo. Basta ouvir a oposição política em Portugal, esse Coelho e essa Cristas que tão mau serviço prestaram quando podiam prestar os melhores serviços, que na tristeza do abandono sonham agora regressar, por qualquer meio, a qualquer preço, a uma ribalta de luzes em curto-circuito, as mesmas que iam eletrocutando os portugueses não há muito tempo. São péssimas memórias, ambos. Um casal que nos traz engulhos. Recordo, com receio, que eram um casal de três. O terceiro anda agora em parte incerta, negociando, colhendo proventos.

Há um sabor antigo e tremendo também na esfera internacional: uns falam de califado – coisa do século VII – como anseio universal. Qualquer motor de busca, mesmo aquele que não admite a livre concorrência, diz-nos que os sunitas entendem que o califa deve, idealmente, ser um membro da tribo dos quraish, eleito pelos muçulmanos ou por seus representantes. Esclareça-se: os coraixita eram (e sublinhe-se) os membros da tribo árabe dominante na cidade de Meca durante os primórdios do islamismo. Tribo à qual pertencia a linhagem de Maomé, assim como a primeira a liderar uma oposição inicial à sua mensagem.

Já para os xiitas, o califa deve ser um imã – os imãs são os principais líderes religiosos – que descenda diretamente da Ahl al-Bayt, a família do profeta Maomé. (Ahl significa família e bayt, casa). Os locais onde se encontram sepultados membros da Ahl al-Bayt, como o mausóleu de Ali em Najaf ou o de Hussein em Karbala (ambas as cidades situam-se no Iraque), são importantes pontos de peregrinação de muitos muçulmanos.

Os indícios de um desejo surpreendente de regresso ao passado, estão bem presentes noutros sintomas: Donald Trump (que nega as ameaças sobre o planeta e seus utentes e as promove de um modo insano), Putin (na nostalgia utópica da mãe-Rússia, operando em zonas estratégicas do mundo), e tantos cultores do extremismo nacionalista, em especial um coro de muitos medíocres perigosos que abundam e se reproduzem como cogumelos venenosos e que podemos encontrar nas redes sociais sem grande esforço (e muita náusea em sequência).

Os discursos são lamentáveis e inquinados, do muito recente exemplo de Nuno Magalhães, deputado do CDS, aproveitando o tempo de antena no Diário de Notícias, a uma imprensa desacreditada, instrumentalizada que inventa e mente de modo impune , quando seria seu apanágio constituir o lado sóbrio e democrático do equilíbrio institucional.

Neste regresso ao passado ainda há que acrescentar uma palavra ambígua: bruxaria. Voltou ao quotidiano e é brandida como se fosse coisa pouca. A palavra, designa o uso de poderes de cunho sobrenatural, sendo também utilizada como sinônimo de feitiçaria. (Só por curiosidade, li há dias as memórias de Lúcia dos Santos, pastorinha, que usa e repete, insiste no termo sobrenatural para se explicar).

Jeffrey B. Russell historiador norte-americano divide em três pontos de vista principais a bruxaria: o ponto de vista é o antropológico, onde bruxaria é sinônimo de feitiçaria; o segundo é o histórico, que através de documentos escritos coloca qualquer tipo de bruxaria como uma prática ligada ao culto ao diabo; o terceiro é o da bruxaria moderna ou hodierna, que defende a bruxaria como religião pagã (ou neo-pagã). Li o termo bruxaria, nos últimos dias, do futebol à política, como se fossemos coletivamente alvos de um feitiço muito intencional.

Uma coisa é certa: não há bruxaria nos incêndios que lavraram no País, matando portugueses: não há bruxaria nos roubos do paiol de Tancos.

Nem nas opções do  Siresp, muito menos na “queda de aeronave”, nos “suicídios” do Pedro Passos, o líder sicidário. Mas também não há bruxaria na recuperação económica e no seu crescimento, nem nos índices em queda do desemprego, nem nas metas cumpridas, nem no desejo de regressar de alguns jovens talentos que a Direita obrigou a emigrar. Há, isso sim, eleições em Outubro – e um espantoso impudor em querer ganhá-las.

Não me apetece ser conclusivo neste emaranhado raciocínio, mas noto um enorme apego ao passado.  Uma resistência ao progresso, talvez pelo medo da ousadia e do que poderá vir se nos esforçarmos. Ainda há dias vi um velhote a dar vivas ao Estado Novo, no meio de uma avenida, provavelmente por ter falhado um tratamento qualquer. Nas redes sociais noto o crescente sintoma de uma necrofilia – parafilia caracterizada pela excitação sexual decorrente da visão ou do contacto com um cadáver – que exalta tipos como o ditador alemão de aspeto ridículo ou o homenzinho de Santa Comba que tanto mal nos deixou em herança.

Não é preciso ser bruxo para concluir que vivemos tempos desapaixonados; diria mesmo: sem feitiço.

Alexandre Honrado

Historiador

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