2 AGO 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

CULTURALMENTE VOS DIGO

 

Pegamos numa grande peneira, um crivo, uma dessas redes que algumas crianças usam na praia para fazer passar-lhe areia e reter conchinhas e pedras. Todavia, peguemos numa grande peneira, num crivo, quiçá numa rede – adoro escrever quiçá, não sei se se nota – e nela coloquemos os povos que nos compõem e cujo somatório ou simpatia, miscigenação, cruzamento sexual, ou outras trocas, fez resultar esta massa híbrida, medusa de tantas cabeças, a que erradamente chamamos “nós, portugueses” (sim, até eu caio por vezes na armadilha de usar tal expressão).

Bem agitado o crivo, fica-nos coisas de antepassados, os colonos do Norte, já nem sabemos de onde vieram, mais os mouros e os moçárabes, os judeus e outros de quem nem a etnia ou a crença apuramos convenientemente. Nos últimos anos, com expressividade, vieram os povos de África – e depois de todo o mundo. Tenho vizinhos (por exemplo) da Índia, do Nepal, do Bangladesh, da França, do Brasil e da Austrália aqui mesmo onde moro…

Em certas épocas, é bom recordar, a coabitação foi desastrosa. Mouros atirados para as mourarias e judeus para as judiarias, com insígnias no vestuário como mais tarde os nazis tanto promoveram. O credo cristão e dominante era impiedoso – e não só na matança dos judeus nos primeiros anos do século XVI, sim, falo do massacre dos cristãos-novos no Rossio em 1506, por ordem de Manuel I rei de Portugal e que é um dos genocídios da história universal, como na promoção de todos os preconceitos.

Veio a Expansão e com ela o Império e as colónias, e as conversões à força, a descriminação, a escravatura, a estonteante volúpia de ser dono de coisas e de gentes. Por isso nunca tivemos uma identidade cultural ou nacional mas traços equívocos de agrupamentos subordinados ao poder, com um alto clero cómodo, um clero operacional e bem mandado, uma nobreza assente no que retirava dos fortes conflitos sociais que a sustinham e mais tarde com a burguesia a tomar conta do poder e a acreditar que a paz era consigo, que bem que se vivia nas colónias e no estado que era novo que era podre que era mortífero. E sobretudo com uma miríade de povos…

É sempre um erro interpretarmos coletivos – como se a unidade dos diferentes possa ser realidade. E ver na personalidade individual as definições – é outra ilusão, que se paga caro.

Hoje vemos como somos diferentes uns dos outros. Como o nosso vizinho é racista, o apresentador da tv é xenófobo, o senhor que serve à mesa é homofóbico, ou a nossa própria família nos olha de lado, se subvertermos os padrões que tomou como seus, ou da sua estabilidade.

Hoje vemos que “nós”, povos que evoluímos de um bilinguismo literário que ainda não é definitivo na sua evolução, temos ainda carpideiras de maioridade – com 27 anos feitos – a chorar um acordo ortográfico e a reivindicar a “língua de Camões!!!” – coisa tortuosa e disforme que se falava há quase 500 anos, sabe-se lá com que pronúncia, e com uma grafia afetada que hoje nos faria carpir por todas as razões. Já agora, Camões também era bilingue e o castelhano agradava-lhe muito.

Esta visão Integralista, velha e de Estado Novo, que hoje encontramos nas redes sociais – olhar medieval, rural, bacoco e retrógrado, assente num desequilíbrio nacionalista que nos faz temer – é ao mesmo tempo a visão ignorante que esquece que somos muitas peles, muitos matizes, muitas sensibilidades, muitas formas culturais – e por vezes, quase sempre, que somos uma massa obrigada a partilhar o mesmo espaço e com evidentes dificuldades de interação.

Somos da mobilidade, da diáspora, do universal. E não somos nada disso, quando somos do imóvel, do imutável e do individual, do carpir e do resistir à mudança onde se espelha uma falta de dinâmica confrangedora, capaz de aceitar a diferença e o próximo, de ser cosmopolita e criador.

Seria bom que se irritassem com algumas das coisas que escrevi. Obrigado.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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