10 MAI 2017|CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO


O Baptista Bastos morreu-nos.

Para nós, que o acolhíamos nos afetos, a notícia não sendo totalmente inesperada é de uma brutalidade intensa, dessas geradoras da saudade – coisa tão portuguesa – desde o primeiro instante.

Baptista Bastos morreu-nos, pousou a metafórica caneta nunca repousada e deixou-nos órfãos e entregues a esta sofreguidão do viver onde todos emitimos juízos de valor e tão poucos de nós cultivam a sapiência crítica e o amor pelo que sentimos justo e urgente.

Sempre que o Baptista Bastos escrevia, sobressaltavam-se uns quantos. E ele não fazia mais do que vincar sobre as folhas a escrita ágil capaz de olhar-nos nos olhos. Há talentos assim. Desses que entram nos outros e retiram deles punhados de verdade.

Sei que escrever agora sobre o BB será escrever sobre mim. Vou poupar-me a essa tentação, não sem dizer, todavia, que perco um mestre. Morre-me. Morre-nos.

Nada na cultura portuguesa parece ser  de grande didática – aprendemos pouco com o passado, com a grandeza, com as derrotas, com o que nos aproxima e nos separa, com as frustrações – e temos o fado, sim, o fado no sentido mais lato: cantamo-nos pelos cantos com nostalgia. Entoamos a lágrima que procuramos, como se o destino estivesse traçado na palma da mão e dele saísse pelos dedos às cordas de uma guitarra. E lamentamo-nos como se os acordes da música nos salvassem. BB era o oposto.

A ver bem, se calhar, o Baptista Bastos nem era português. Há nas nossas exceções culturais esse condão: de vez em quando lá somos universais. Ficamos nós, todos os outros, à sombra do Universo, mesmo descontando a indolência do clima, desse sol que tanto nos dá e amodorra.

Armando Baptista Bastos não se estendia ao sol da prosa: cultivava-a. Não era portanto um homem litoral, mas da profundidade das sementes. Um agricultor de palavras, acho eu que até já escrevi isto mesmo há muitos anos. Por cima delas, das palavras, era-o também das ideias. E que tanto nos escasseiam.

Não somos de entidades exclusivas – mas felizmente temos entes excecionais.

Tenho, admito, um grande orgulho em tê-lo partilhado, que estar com ele era mais extenso do que uma lição dos académicos.

Creio que foi por ter andado na António Arroio em menino e moço que o BB tinha aquela estrutura de requebros e fundações que a sempre Arte reclama. Ou por ter andado num liceu francês, habitava-o uma cultura do antigo respeito pela liberdade, pela igualdade, pela fraternidade que até a França de hoje tem como névoa onde se perde. Mas foi na escola dos jornais, de um tempo em que se acendiam nas páginas os homens que depois fomos, que BB se agigantou. Está no grupo dos últimos jornalistas. Está no grupo muito pequeno dos que nos fazem enorme falta.

O Baptista Bastos morreu-nos. É a própria dor que fica de luto e o País se encolhe alguns palmos mais.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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