21 JUN 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

ARDEMOS!

 

Ao aceitar o termo “Filosofia” como, literalmente o «amor pela sabedoria» e ao consagrar-lhe uma área de interesses à observação e ponderação de tudo o que está contaminado por alguma coisa, ou aquilo que tem a sua natureza alterada, fomos ganhando a convicção de que será possível observar o que nos rodeia aplicando um método do pensar – a Filosofia do Impuro – que nos permite gerar novas dúvidas – é disso que o pensamento académico se faz – e afastar incertas certezas que o vulgo produz com a velocidade de uma chama numa mecha seca.

Emprego de modo atrevido o substantivo feminino “mecha”, pois sei que caiu em desuso – hoje ateamos fogos de modos tão diversos – e penso, inevitavelmente, no manto negro da destruição causado pelo fogo que tem andado, sem sentido, a devastar-nos.

Vejamos como os pensamentos se entrelaçam e acabam por fazer(-me) sentido.

Quando falamos de mecha, de pavio aceso, de coisa ateada, de fogo – mesmo com origem natural – corremos a aplicar a metodologia operacional dos raciocínios oferecidos pela Filosofia do Impuro para inventariar (e menos para compreender?) a verborreia intensa que se desprende de todos, de nós, como lava reprimida que finalmente brotou, que revela, uma vez mais, as frustrações que temos, que somos, que nos alteram – e conferem a conspurcada aura das impurezas que reclamamos como as nossas verdades.

Ao vermos o País sucumbir perante as chamas, ao contarmos feridos e mortos, ao chorarmos, umas vezes em público e muitas, muitas outras em privado, vemos o desfilar daquilo em que nos tornámos: sujos, com terras ao abandono, com interesses de corrupção que há muito ultrapassaram o bem comum, com uma opinião pública infeliz, com uma opinião publicada vergonhosa, com a voz de flauta mágica dos assessores de comunicação do passado a passar agora por coro imbecil, com as feridas todas à vista, com as florestas sem guardas, os políticos sem perdão e sobretudo os povos – de que fazemos parte – a provarem como é vergonhosa e incapaz a sua maneira de estar, suspirando, carpindo, remoendo, apontando a dedo, em esquinas e sombras, quando nas suas mãos sempre esteve, nos últimos 42 anos, a capacidade de fazer varrer os 4O e tantos anos anteriores, de repressão, perseguição, autoritarismo, acefalia, impudor, ódio ao semelhante, violação de todos os direitos e vozes amordaçadas, caladas na ponta das espingardas.

Somos palha, agora, que arde. Não sabemos escolher, gritar, exigir aquilo a que temos direito.

O corrupto de ontem é o aplauso de amanhã.

O Governo que nos traiu não vai ao banco dos réus – e pavoneia-se, como se fosse a voz da consciência de um Pinóquio que, por ser de madeira, sucumbe à combustão.

Não há muito para fazer.

Há tudo por pensar.

Corremos o risco de arder, do Minho ao Algarve, Ilhas incluídas. Porque já ardemos por dentro. Em silêncio, em dor profunda, em ignorância.

Ao contrário do que alguns pensam, o fogo nunca foi purificador. Não gera o puro.

Talvez a exceção seja a da alcachofra que quando arde mostra um coração branco – mas essa é outra simbologia.

Estamos ainda a tempo de aprender uns com os outros.

Não somos desses grupos do mundo que exigem regressar à Idade Média com receitas de vida imbecis e aniquiladoras.

Somos ocidentais, não à maneira do triste Trump. Ocidentais de entendimento mediano, com liberdades consagradas e portas abertas para sermos o que quisermos. Atirar com tudo isso à fogueira – como vemos por aí, com gente a pedir a demissão de uma ministra porque chorou, a criticar um Presidente por fomentar a cultura afetiva, a atirar com aviões ao chão quando voam por nós, a fazer presenças ditas jornalísticas ao pé de cadáveres em nome de currículos perdidos no tempo, com os comentários desonrosos que enchem o Face à procura de Likes de desonra (olhemos para a origem dos termos: a palavra grega para desonra é atimia, significa desonra, mas também repreensão, vergonha, vileza. Para a palavra honra temos time, definida como preciosa) -, atirar com o melhor de nós para a fogueira não nos purificará, mas anulará o pouco que nos distingue.

Temos um lado puro, certamente: é solidário, fraterno, igualitário, livre, espontâneo, tolerante, integrador, diversificado, intercultural, sem cor, sem preconceito, sem raiva. E outro que herdou o pior dos derrotados e a herança do que nunca digeriram.

Hoje ardemos.

Amanhã renascemos.

Temos de merecê-lo.

Alexandre Honrado

Historiador

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