1 JUN 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

A eternidade ao nosso alcance

 

Cada um de nós é superlativo.

Aprendemos na gramática, talvez aos oito ou nove anos de idade, essa coisa do Grau Superlativo Analítico, mas o que quero mesmo dizer é que todos somos superlativos.

A coisa ocorre quando a qualidade de um ser é intensificada em relação a um conjunto de seres. E todos nós, nem que seja em pequena escala e em raras exceções, agarramo-nos fortemente a essa ideia de que somos superiores, o que é o mesmo que dizer: superlativos.

Para sermos superiores, temos de sê-lo em relação aos outros – nem que sejamos superiores aos pequenos amimais que maltratamos ou suprimimos: lá se vai a mosca perturbadora, o mosquito noturno, a formiga do piquenique; os de médio porte, vem o verão e abandonamos uns quantos; os que dão a vida para aconchego dos nossos estômagos – sai um hamburger, vem o bife com ovo a cavalo, segue o polvo à lagareiro que se cruza com a pescada, o javali, o caracol, o túbaro – fazem a lista infindável.

É na morte alheia que se afirma esse superlativo. Sendo como somos finitos – mortais – é como se o momento da valorização nos desse como recompensa uma qualquer felicidade para a construção do erro que somos.

Há quem o faça mandando matar na Síria, no Afeganistão, no Sudão do Sul, onde calhar.  Há quem o faça ainda mais cobardemente com umas bombas à cintura escolhendo crianças como alvo.

Lemos (todos o podíamos ter feito), na imprensa, uma notícia que ignorámos – não é connosco, uma vez mais, suspirámos nós – onde se dizia que em Silicon Valley, coração das grandes realizações tecnológicas do mundo, Ray Kurzweil, cientista nascido em 1948, gere um orçamento de muitos milhões – que lhe chegaram às mãos graças ao generoso e superlativo apoio mecenático da Google – para descobrir a imortalidade.

Dito assim, é coisa menor. Vejamos: Ray quer que os ricos não morram, pelo menos enquanto lhe pagarem uma boa vida.

Os superlativos – ou os radicalmente superlativos, os superiores da elite, os poderosos – ou serão imortais, mais dia menos dia, ou quase eternos. É a leitura que fazemos. Mas como todos o somos – às mãos cheias, em todos e cada um isso é evidente, basta ir para as redes sociais e usar, por exemplo, o Google para nos reconhecermos – a nova etapa é inquietante.

Se nos matamos por petróleo, água e poder, em breve vamos matar – e ironicamente morrer! – pela vida eterna.

Se repararem, Donald Trump está a dar bons contributos, ao querer acelerar a destruição do mundo, talvez com o superlativo sonho de que a eternidade está ao seu alcance, basta ser imortal, pagando por isso, e provavelmente encapsular-se à espera de dias melhores ou partir comodamente para um mundo paralelo – o que, se formos a ver bem, pode ser muito interessante, se não voltar.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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