9 AGO 2017 | CRÓNICA | ALEXANDRE HONRADO

A BELA IGNORÂNCIA OU FALTA BRILHARETE A TANTA POEIRA

 

Confesso que ganhei umas massas consideráveis em apostas – e uma barrigada de riso – graças ao artigo que escrevi no Jornal de Mafra na semana passada.

Apostei com um belo grupo de familiares e amigos que tipo de comentários teria, até de onde viriam, e que falta de conhecimentos revelariam. Cheguei a escrever uma frase que coincidiu, quase na íntegra, com uma das “observações!” com que a prosa foi mimoseada. Nada de relevante, sempre que se fala do velho acordo ortográfico lá vêm os mesmos – e sim, toda a gente sabe que o Acordo Ortográfico é um dos legados PSD, um cavaquismo, que teve a bênção política de Santana Lopes e Cavaco e que foi político, mas não será por ser de esquerda que devemos simplesmente ignorar que foi aplicado e que todas as escolas e livros escolares do país o ensinam e na sua maioria aplicam e ou tem uma revisão séria ou é como atrasar o relógio para reiniciar o verão às portas do inverno –, o que não deslustra nem aquece nem arrefece nada do que escrevi, felizmente, até porque não conheço das linhas académicas nenhum dos comentadores, o que lhes traria legitimidade e o meu respeito. Como alguém disse: tocou na ferida. E nos moribundos do costume.

Digo e repito: juízo de valor não é crítica. E a segunda só ganharia com o pudor do primeiro. Juízo de valor é “comentar com poeira incapaz do brilharete”.

Lamento que sempre que se sacuda a alcatifa saiam invariavelmente à sala os mesmos ácaros. E é tudo.

Nenhum investigador digno desse nome pugna pela verdade, mas pelas interrogações que a verdade – sempre relativa – impõe à pesquisa. Estamos portanto habituados à produção do contraditório.

Quem comentou – mesmo os mais ordinários que estão convencidos que comentam – deve saber que  temos, nesta matéria da linguagem, de apreender o Mentalismo. É que a teoria gerativa da linguagem tem um compromisso explícito com a existência de estruturas mentais formais e abstratas subjacentes ao conhecimento linguístico. Depois, com a Combinatorialidade. Pois as sentenças de uma língua não são enunciadas aleatoriamente, nem se perfilam sob princípios de sistema de cadeias de palavras (sim, os meus “comentadores” devem saber uma coisa tão simples como esta) que são conhecidos como modelos de estados finitos ou modelos de Markov).    “A gramática é um sistema combinatório discreto. Um número finito de elementos discretos (neste caso, palavras) é selecionado, combinado e permutado para criar estruturas maiores (neste caso, sentenças) com propriedades bastante distintas de seus elementos. E os seus elementos são mutáveis.

Finalmente, há que perceber a aquisição: as regras funcionais de uma língua são abstrações formais e não conscientes. Se não fosse assim, como explicar o facto de que as crianças conseguem adquiri-las em tão pouco tempo, tendo em vista que os pais e colegas não dispõem de meios para verbalizá-las? E, mesmo que conseguissem, não seriam compreendidas, visto que a língua ainda não foi adquirida. A teoria postula a existência de uma Gramática Universal a qual possibilita a aquisição da língua nativa. Que, convençam-se, é tudo menos grafia. Sim, basta ler Chomsky e quejandos.

Já agora, Modernismo é uma coisa antiga, do início do século XX (cem anos passaram) e não se deve misturar alhos com bugalhos. Antes de Camões houve Sá de Miranda. Eça de Queirós (assinava Queiroz), confessava que dava “erros ortographycos e para isso existiam os revisores”.

Vou comprar mais livros com o dinheiro que ganhei nas apostas. Obrigado. Muito obrigado.

(Lembram-se de como acabei o artigo na semana passada: seria bom que se irritassem com algumas das coisas que escrevi. Bué de ´brigadinhos.)

 

Alexandre Honrado

Historiador

P.S.

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