25 MAI 2017 | DESTAQUES | JM

Não se imagina o encerramento de um quartel de bombeiros, de uma esquadra de policia ou de um hospital, para que se possa realizar uma reunião interna, não interessando a sua oportunidade, inadiabilidade ou urgência. Ora, terá sido isso mesmo que aconteceu em Mafra na última Terça-Feira 23 de Maio entre as 14h30 e as 17h30, situação que se repetiu hoje entre 10h30 e as 13h30, onde alguém com responsabilidade na gestão daquela unidade de saúde, terá decidido encerrar o centro durante aqueles períodos.

São bem conhecidos os problemas do centro de saúde da vila. Trata-se de um antigo hospital da misericórdia (a quem o Ministério da Saúde ainda pagará renda) que foi transformado em centro de saúde, com tudo o que isso composta de vetustez e de inadaptação funcional. Para além disso, tanto quanto é possível inferir pela simples observação da estrutura e do funcionamento daquele espaço, há muito que deveriam ter ocorrido mudanças, mais a mais, se consideramos que durante décadas a força política local coincidiu com a força política que decidia a nível do Ministério da Saúde, sendo que, no entanto, nada aconteceu.

Não se imagina o encerramento de um quartel de bombeiros, de uma esquadra de policia ou de um hospital, para que se possa realizar uma reunião interna

A falta de médicos é crónica no concelho (e no país fora dos grandes centros) e também na vila. Mesmo a 20 minutos de Lisboa, mesmo com incentivos, tem sido muito difícil fixar os clínicos, razão pela qual há muitos utentes, há muitos meses, sem médico de família. Tudo isto leva também a que as consultas de seguimento sejam demasiado espaçadas no tempo e, claro está, explica a existência de um número demasiado grande de utentes sem médico de família.

Já a nível da “urgência”, a situação é verdadeiramente calamitosa. O aparelho de raios X é muito antigo e por isso avaria com frequência, para frustração dos clínicos que se vêem assim impedidos de utilizar um importante meio de diagnóstico, nomeadamente no trauma. Por outro lado, segundo relatos que nos chegaram, a alegada inexistência de um desfibrilhador terá levado mesmo, recentemente, à morte de um utente nas instalações da urgência. As consultas, num casarão daqueles, são feitas numa sala onde os dois atendimentos estão separados por uma cortina, significando privacidade zero para o doente e péssimas condições de trabalho para os médicos de serviço. Os clínicos contratados para os serviços de urgência terão também uma forma muito sui generis de encarar o serviço que ali prestam, com frequentes e por vezes demoradas saídas durante o serviço. para fumar ou para dar dois dedos de conversa. É certo que ali raramente se atenderão verdadeiras urgências, sendo aquele serviço utilizado sobretudo pelos utentes como forma de ultrapassar a contingência da falta de médico de família.

As zonas administrativas de atendimento constituem um exemplo acabado de desrespeito pelo utente/doente. Do lado do centro de saúde, os doentes tem de se manter em pé para serem atendidos, sujeitos a reconfirmações de consultas, enquanto que do lado das “urgências” existe um vidro a separar o funcionário administrativo do doente, criando condições que impedem muitas vezes a simples audição clara, quer dum lado, quer do outro.

A manter-se o espírito que prevalece na gestão do centro de saúde de Mafra, o vultuoso investimento que irá ser feito nas novas instalações, poderá mostrar-se como dinheiro dos contribuintes deitado ao lixo

A parte logística destes problemas ficará, espera-se, mitigada com a entrada ao serviço do novo centro de saúde de Mafra. Quanto ao resto, uma nova equipa de gestão, com uma visão mais moderna da arte, mais pro-activa e mais centrada no utente/contribuinte, poderia ajudar a readquirir o espírito de serviço que este tipo de instituição deve sempre cultivar. A falta de médicos de família e a necessidade de recorrer a médicos em fim de carreira, continuará a ser um problema difícil de ultrapassar nos próximos anos. Por alguma razão, floresce na vila o exercício da medicina privada ao nível da clínica geral.

Por outro lado, relativamente ao Hospital de Torres Vedras, que visitámos esta semana, sensibilizaram-nos para a ideia de que aquela unidade hospitalar não terá razão de existir e que o Hospital Beatriz Ângelo (Loures) e o Hospital das Caldas da Rainha seriam suficientes para servir os doentes do Oeste, desde que o acesso à urgência hospitalar ficasse claramente protocolado, implicando isso a definição e a criação de condições objectivas, técnicas e formativas, para que os serviços recuados de urgência dos centros de saúde, desempenhassem cabalmente as suas funções, em vez de servirem fundamentalmente para suprir a falta de médicos de família. A urgência do Hospital de Torres Vedras é outro exemplo daquilo que não se deve fazer em termos de serviço. Doentes pelos corredores, doentes sujeitos a canalização de veia num espaço não resguardado de acesso à  pequena cirurgia e uma sala comum dentro da urgência onde “residem” doentes à espera de serem atendidos, doentes a fazer soro, doentes a fazer oxigénio e até doentes a fazerem a sua refeição. Salva-se ali a diligência do pessoal médico de enfermagem e dos funcionários.

 Nota da redacção – Devido à greve da função pública, o Centro de Saúde de Mafra esteve hoje, todo o dia, sem sistema informático.

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