Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (2º Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   BENVINDA – Uma História de Emigração 2º Episódio   Primeiro foram eles, tinham que ir, os miúdos ficaram com a mãe dela, à espera que eles assentassem casa e trabalho, o passador dizia que isso não havia de faltar, foi cobrando o serviço, a prestações mensais, durante quase um ano, até fazer a conta que entretanto já tinha subido, havia muita gente pelo meio a quem ele ia ter de untar as mãos, era como ele dizia, ao guarda-fiscal, ao guarda-republicano, a muitos,…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | O Apagão

O Apagão   Um tempo de esquecimento. O esquecermos e o sermos esquecidos. As ruas sem saída. Há quem lhes chame becos. De beco em beco nos vamos passeando. Um passeio sem calçada. Uma ilha abandonada. Uma onda gigante que tudo leva. Um vazio. Um oco pensar. Salvaram-se os que chegaram ao cimo da montanha. Sermos meninos de novo. Brincarmos ao antigamente. Jogos muito antigos. Coisas de paciência. A paciência a faltar. Quadrados, losangos, círculos. Construções de destruir. Desconstruir a realidade. As cores berrantes. As primárias ilusões. Uma festa para…

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Crónica de Alice Vieira | Recordando António Reis

Recordando António Reis Alice Vieira   Para muitos, o nome de António Reis dirá muito pouco. Haverá quem pense tratar-se de um dos fundadores do PS –mas não, não é esse. Outros, mais bem informados, falarão talvez do cineasta, realizador de  filmes como “Jaime”,“Trás os Montes”, “Ana”,  e outros. E sim, aí acertaram. Mas aquilo que eu hoje gostaria aqui de recordar não é essa sua faceta—mas outra, e essa sim, quase completamente ignorada : António Reis foi um grande poeta português. Sempre poeta em tudo o que fazia, ou…

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Crónica | Alexandre Honrado – À procura de vozes encantatórias

À procura de vozes encantatórias Escondido das ribaltas, mesmo com o lançamento de um livro novo – “meu”, em São Paulo, ou nosso, porque feito com a escritora brasileira Penélope Martins e a artista plástica espanhola  Nivola Uyá– , um ano letivo à porta onde a área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona se mostra de uma dinâmica imparável, com a aceitação do convite da presidência da República para participar na feira do livro de Belém – que considero uma bela iniciativa, República é Educação, quem o negar que…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | A Finitude

A Finitude   Não sei o que nos ata à vida. Não sei o que nos une às vidas vividas. Somos uma soma de vidas. Somos as experiências que vamos acumulando. Vemos nascer e morrer. Choramos e rimos. Há quem reze e agradeça a um ser que acha divino. Rimos quando ouvimos o choro anunciador da vida. Choramos quando o último suspiro de alguém anuncia a sua partida. Um dia conheci um homem que vivia numa cabana no alto de uma serra alta. Vivia só e, no entanto, nunca tinha…

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Crónica | Alexandre Honrado – A esperteza saloia

A esperteza saloia Sou boa pessoa, digo eu, como cesta que se gaba de não ir às próximas vindimas. Creio que o sou – e isso mesmo sem atacar com raiva primária o Acordo Ortográfico 90 ou os programas indecorosos das televisões nacionais, ou os erros jornalísticos de gramática ou a falta de senso de quem devia atinar para bem de todos nós. É por isso que, agindo na base dos meus sentimentos mais profundos, tenho muita pena de certas pessoas. Só para dar um exemplo, tenho até uma certa…

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Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério   BENVINDA – Uma História de Emigração 1º. episódio   Benvinda é hoje uma mulher de ancas opulentas e pernas ligeiramente arqueadas, as mesmas que em nova eram de boa medida a atraírem os olhares gulosos dos rapazes da aldeia, e que o peso das cargas e dos anos deformou, alargou, em abundâncias de moleza e desconsolo. Duros, os trabalhos do campo, dura a terra no longo Verão que queimava o restolho e a pele, que aumentava nos homens a sede de vinho e…

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Crónicas de Jorge C Ferreira | Um sonho de criança

Um sonho de criança   Era uma vez um menino, a quem, como a todos os meninos, um dia, começaram a perguntar: «Que queres ser quando fores grande?» A resposta saía pronta e convicta: «oficial da marinha mercante.» Esse era um menino que tinha um desejo imenso de  navegar, de correr mares e continentes. Um menino que não tirava os olhos do mapa mundo. As contingências da vida obrigaram-no a seguir outros caminhos. Caminhos de ganhar a  vida. Começou a trabalhar com tenra idade. Foi à tropa. Formou família. Teve…

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Crónica de Alice Vieira | Saudades de Camélias

Saudades de Camélias Alice Vieira   “Então o que vai ser hoje, menina?” É por estas e por outras iguais a esta que fujo dos hipermercados e tento o mais possível abastecer-me nos mercados da terra (ou da freguesia…)  : só mesmo aqui, neste mercado perto da minha rua, é que eu ainda sou menina. Sorrio,  enquanto a rapariga vai gabando as virtudes da mercadoria, “por acaso as rosas até nem estão muito caras, e se a menina lhes deitar o pó desta saqueta duram muito mais. E temos umas…

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Crónica de Alexandre Honrado | Elogio da coisa

Elogio da coisa (da selfie ao fascismo: sorria!)   Já me sentei a mesas só de padres, não sendo padre. E uma freira idosa até me interrogou, sem piedade, chegando à conclusão que eu lhe mentia. É que  ninguém com esta barriguinha, esta primeira fase de calvície (a minha carequinha nuclear), que parece uma tonsura (tipo de corte no cabelo do ordinando, que é o que vai receber as ordens sacras do catolicismo, sendo o corte produzido ao conferir-lhe o primeiro grau de Ordem no clero), que sabe o que…

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