Crónica de Alice Vieira | As nossas pátrias

As nossas pátrias Alice Vieira   Para a semana tenho de ir apanhar um avião para Paris. Claro que, a esta hora, ao tempo que a mala já está feita. Pequena, que eu sempre aprendi a viajar só com o essencial. E, se bem me conheço, para aí quatro horas antes do voo já eu hei-de estar no aeroporto. Por razões de saúde, neste último ano não tenho viajado muito. Mas até há pouco tempo quando, por exemplo, um miúdo numa escola me perguntava “onde é que mora?”–eu ria e…

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Crónica de Alice Vieira | Ele há cada palavra…

Ele há cada palavra… Alice Vieira   Se depender de mim, os correios nunca irão à falência e hão-de ter sempre vida longa e próspera. Não há-de haver muita gente, concordo, que, nestes tempos websummíticos  escrevam cartas e postais todos os dias. Mas MESMO todos os dias. E muitos. Ainda não há muito tempo, Novembro era o mês em que eu inundava as duas estações de que “gasto” em Lisboa, com cartas e encomendas para amigos que viviam em terras  para  lá do sol posto. Das primeiras vezes, o funcionário…

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Crónica de Alice Vieira | Dia de finados

 Dia de finados Alice Vieira   As tias que me criaram tinham todas o culto exacerbado da morte. Não ligavam muito aos vivos—mas ninguém lhes levava a palma no choro pelos mortos. Podiam estar anos sem ver uma pessoa mas, no dia do seu enterro, não largavam o caixão até ele descer à terra, sendo sempre muito acarinhadas pelos presentes que, diante do seu choro convulsivo, as tomavam por familiares muito próximas do defunto quando, na maior parte das vezes, não passavam de simples conhecimentos das termas de Caldelas. Uma…

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Crónica de Alice Vieira | O cheiro a fumo

O cheiro a fumo Alice Vieira   Hoje—e até daqui a muito tempo—todas as ruas cheiram a fumo. Hoje—e até daqui a muito tempo—todas as palavras cheiram a  fumo. Hoje—e até daqui a muito tempo – tudo cheira a fumo. De repente, o mesmo cheiro que entrava pela minha casa, no princípio daquele mês de Setembro de 1966. Eu tinha pouco mais de 20 anos, e nessa altura vivia em Rio de Mouro, uma pequena aldeia perto de Sintra. E sempre que chegava o verão, chegavam os incêndios. Quer dizer…

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Crónica de Alice Vieira | A propósito de eleições

A propósito de eleições Alice Vieira   A primeira vez que o meu filho votou foi para umas eleições autárquicas, já lá vão quase 30 anos. Mas lembro-me sempre disso. Ele tinha então um amigo—amigo desde os bancos da escola. Eram inseparáveis aqueles dois. Gostavam das mesmas bandas desenhadas, eram sócios do mesmo clube de futebol, disputavam partidas de xadrez todos os sábados à noite, eram fanáticos dos Sétima Legião, iam às mesmas discotecas, estavam no mesmo curso da faculdade, trocavam CD’s, selos, vídeos, livros e confidências e lembro-me que…

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Crónica de Alice Vieira | Recordando António Reis

Recordando António Reis Alice Vieira   Para muitos, o nome de António Reis dirá muito pouco. Haverá quem pense tratar-se de um dos fundadores do PS –mas não, não é esse. Outros, mais bem informados, falarão talvez do cineasta, realizador de  filmes como “Jaime”,“Trás os Montes”, “Ana”,  e outros. E sim, aí acertaram. Mas aquilo que eu hoje gostaria aqui de recordar não é essa sua faceta—mas outra, e essa sim, quase completamente ignorada : António Reis foi um grande poeta português. Sempre poeta em tudo o que fazia, ou…

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Crónica de Alice Vieira | Saudades de Camélias

Saudades de Camélias Alice Vieira   “Então o que vai ser hoje, menina?” É por estas e por outras iguais a esta que fujo dos hipermercados e tento o mais possível abastecer-me nos mercados da terra (ou da freguesia…)  : só mesmo aqui, neste mercado perto da minha rua, é que eu ainda sou menina. Sorrio,  enquanto a rapariga vai gabando as virtudes da mercadoria, “por acaso as rosas até nem estão muito caras, e se a menina lhes deitar o pó desta saqueta duram muito mais. E temos umas…

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Crónica de Alice Vieira | A Blusa Verde

25 Ago 2017 | Crónica | Alice Vieira A Blusa Verde Alice Vieira   Não sou mulher de superstições. Nunca fui. Sempre convivi muito bem numa mesa de 13 pessoas, não me afligem gatos pretos atravessando-se no meu caminho nem cabides largados em cima da cama, não me preocupo se abrirem chapéus-de-chuva dentro de casa, não acredito que uma carteira pousada no chão possa afastar o dinheiro dos meus bolsos e, se não passo por debaixo de andaimes, é apenas porque me parece perigoso, desde o dia em que uma placa…

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