Li, há um par de dias, uma frase – a propósito, é de Gaston Bachlard– que rezava assim: “A ciência começa mais com um devaneio do que com uma experiência, e são precisas muitas experiências para afastar todas as brumas do sonho.”

Antes de prosseguir quero desmontar o que acabei de dizer.

Em primeiro lugar a afirmação que me posiciona: “há um par de dias li uma frase”. Ler é um dos meus prazeres, tal como escrever. Não só treina as ideias como as interroga, permitindo que nada nos pareça definitivo e irredutível. Ser permeável a novas ideias é salutar. E se nos habituamos às ideias, depressa entendemos que as nossas têm o peso que têm e que não são nada sem as ideias dos outros. Ao mesmo tempo, ler é a forma mais sopesada de aprender. Quero dizer: é tomar o peso certo da aprendizagem.  É quase o oposto da frase de Lenine que esteve tão em moda no nosso PREC (sigla de Período Revolucionário em Curso, expressão que definia os primeiros anos da nossa Revolução de Abril) e creio que Lenine disse isso à Federação das Juventudes Comunistas da URSS : “Aprender, aprender, aprender sempre.” Obviamente, uma palavra de ordem, um estímulo, um apontar de caminho para a “salvação” nesse “inferno” que é a ignorância e o não saber. Mas, afirmo que é o contrário da intenção do líder soviético, porque aprender sempre não equivale ao efeito mais completo de sopesar o que se vai aprendendo – o que torna a aprendizagem quase inútil. Mas isto sou eu a falar, a escrever, sem discorrer sobre a atualidade e fertilidade do pensamento marxista enquanto instrumento fundamental de análise crítica, o que daria outra prosa em outro lugar ou altura.

Ah, não sei se notaram que escrevi na primeira linha, muito acima: uma frase que “rezava assim”. Esta ideia de que as frases podem rezar era muito usada pela minha avó materna, que via na oração um caminho de preenchimento. Gosto da frase, mais do que de rezas, se me permitem o desabafo – embora a mesma não contribua decisivamente no que adiante se escreve.

Depois vem o nome, Gaston Bachelard, filósofo e poeta francês. Ando a estudá-lo há anos, a par com Durand, Maffesoli e Corbin (outras criaturas do pensamento), e por terem desenvolvido bem estruturadas noções do Imaginário (faço esse estudo, exatamente no Centro de Estudos do Imaginário, fica a nota). Finalmente, vem a citação e o que eu pretendo ao transcrevê-la. O efeito científico que emana da escrita tem como germe, invariavelmente, o devaneio.  Como o ensaio. Como esta desgarrada prosa que aqui alinho. Não há por isso ciência que não seja social – porque é feita em sociedade para a sociedade, mesmo que recorra a metodologias exatas e seja feita no paz individual e obscura de um recanto de alquimista (nos dias de hoje, num laboratório com subsídios chorados e sempre muito insuficientes).

Ouvi há dias a um jovem liceal que nenhum cientista social poderá explicar convenientemente  a teoria do Big Bang (ou da Grande Expansão: é a teoria cosmológica dominante do desenvolvimento inicial do universo), e lamentei o jovem naquela sua equivocada armadilha, pois só um cientista social pode de facto formulá-la e explicá-la socialmente. É nestes preconceitos que encalhamos sempre, diga-se com mágoa. Quem entenderia os quadros de Paul Klee ou o urinol de Duchamp, a fusão nuclear ou a nanotecnologia se os experimentalistas das ideias não afastassem as brumas do sonho até chegarem a uma fórmula de entendimento capaz de esclarecer os que lidam menos com as ideias?

Sim, a ciência começa no devaneio (associar o fogo à fricção de duas pedras ou que a higiene diminui a mortalidade ou que de uma barriga de aluguer não virá mal ao mundo) e que são precisas muitas experiências para afastar todas as brumas do sonho (quando, afinal, este último comanda a vida).

Somos o somatório de velhas utopias que tornámos realidade. Dos seres do mundo, essa capacidade distingue-nos dos outros (dos que fazem atentados à vida humana, que limitam liberdade e garantias, que desrespeitam direitos humanos, que se animam com fundamentalismos políticos, económicos, religiosos, que protagonizam, em suma, as brumas dos pesadelos).

Em dias assim, nem sei porquê, é isto que penso.

Alexandre Honrado

Historiador

Publicado em 9 de Junho de 2016

 

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