Escrevo esta crónica antes do jogo de Portugal com a Hungria. Deve ser publicada já sabido o resultado. Sei, agora, que um empate chega e que nós somos bons a empatar. Mas se não empatarmos há sempre as duas hipóteses sobrantes. Uma, encharcar-nos-á de lágrimas e de azedumes, o fel brotará – como aliás tem sobejamente brotado por estes dias e por causa deste cruel desporto-Rei. A outra, dar-nos-á sorrisos de meninos  satisfeitos com a sobremesa ou com os cueiros secos; sairemos a bailar, encantaremos o parceiro, festejaremos noite fora.

Daqui a bocado, uns milhões de tipos como nós, já estiveram em Lyon, presencialmente, ou de olhos postos no grande altar da Europa: o Estádio. Nos estádios, aliás, a multiculturalidade faz esquecer diferenças. A transculturalidade apresenta as melhores equipas. A interculturalidade anima os resultados.

A verdadeira Europa não é a dos rufiões neonazis, nem dos assassinos extremistas, nem dos incompetentes ultraliberais que brandem os mercados como coisa fundamental – não sabendo gerir sequer as suas contas privadas.

A verdadeira Europa é a do futebol, mesmo quando a esse chegam  também os atentados, as mutilações racistas, os insultos de alguns; a verdadeira Europa é esta, dos refugiados, dos habitantes da Europa, das etnias misturadas, dos filhos dos emigrantes em destaque – olhem para o filho de emigrantes muçulmanos argelinos, a estrela Zinedine Zidane, ou para a monumentalidade de Renato Sanches ou de Quaresma, triunfos de migrações, de talento e de realizações.

É talvez por isso que o Reino Unido quer sair da Europa – onde historicamente nunca esteve – e que o País de Gales joga melhor que a Inglaterra.

Feliz a nação que se abriu à imigração e  não questiona a etnicidade dos seus cidadãos: porque somos mescla e não normalização. Porque somos, coletivamente, mais filosofia do sul do que crenças do norte. Porque temos coisas que nos unem – como o futebol, uma das coisas mais próximas do ideal de fraternidade. Mas, sabemos também, que as exceções percorrem esta realidade. Que os que desconhecem como se perde, vêm para as ruas procurar a vitória que não tiveram em campo. Que a imprensa de alguns é capaz de perseguir – como raposa o faria a um coelho-, os jogadores que deseja desmoralizar. Sabemos que Ronaldo esteve na berlinda, porque falhou um penalty – ele que já acertou mais de uma centena. Que farto de se sentir insultado (família incluída) optou pela pior opção: agarrou num artefacto qualquer de um jornalista qualquer e atirou com o dito para dentro de um lago, como o faria a criança incapaz de gerir as suas frustrações. Se Portugal ganhar (repito, estou a escrever isto antes do jogo) e se o golo ou golos forem de Ronaldo, as más línguas beberão a água desse lago e o tal artefacto será uma peça de museu valiosíssima.

Entretanto, a Inglaterra, que ainda pode ficar, connosco, nas contas deste Euro da bola, foge das responsabilidades europeias, uma vez mais, e decide se fica ou se parte desta espécie de união por onde andamos.

Só o futebol nos interessa, então. Amália, perdão, Ronaldo, vai alinhar. Mas com mais dez. E com muitos milhões.  A seleção jogará de verde clarinho. Verdinho de alguma esperança…

Gostava que ganhasse o melhor, mas como sempre, só sei que o melhor das minhas utopias pode não ser o melhor das nossas realidades. Espero que quando este texto for publicado, ande eu a dançar com o meu par brandindo a bandeira que, seja lá como for, nos dói tanto (mesmo quando anda em lapelas erradas que a desprezam).

Alexandre Honrado
Historiador

Publicado em 22 de Junho de 2016

 

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