Como se de figuras de pesadelo se tratasse, saindo das sombras com as suas mãos ensanguentadas, eis que voltam às capas dos jornais, com um pequeníssimo intervalo, a senhora Merkel, o seu corrupto (mas absolvido) Ministro das Finanças e essa figurinha ímpar de opereta que a História colocará numa das páginas mais sombrias da Europa, o português-alemão José Durão Barroso, que um dia nos deixou a braços com uma das piores crises de sempre porque lhe acenaram com comida farta, roupa lavada, boa cama e um ordenado de primeira.

Os três têm em comum um  coração germanófilo (como se dizia no tempo da II Guerra Mundial do século passado) e o gosto por uma Europa que não é a nossa: é do norte, mas sobretudo é do ultraliberalismo, da mística dos mercados, da ausência de Humanismo e que carrega heranças de morte que ontem e hoje vão sendo a sua marca.

Merkel apressa os britânicos – saiam, que queremos continuar a medrar ao jeito germano! -; Wolfgang Schäuble, que descobriu um filão fantástico para não pagar as contas alemãs, começa por afirmar que Portugal precisa de pedir um novo programa de ajustamento e que Lisboa teria sucesso em conseguir esse novo resgate, corrigindo a seguir a declaração, contradizendo-se, como é seu hábito: o país não precisa de um novo programa de resgate se cumprir as regras e os compromissos europeus; Durão Barroso, finalmente, como um bom assalariado a louvar o seu empregador, diz que  a Alemanha tem sido a única “dos três grandes” a valorizar a União Europeia.

Entretanto, enquanto eles teimam, a Europa muda. A Inglaterra bate com a porta, os pequenos movimentos tornam-se grandes movimentos, a desorientação que parece agora generalizada está já a produzir as novas cores do Velho Continente.

Não sabemos ao certo se a nova Europa será a que Churchill sonhou, ou a dos milhões de refugiados que trazem novas interpretações sentimentais e territoriais (a Europa já passou por isso várias vezes e sobreviveu sempre). Ou se as dívidas pelo esforço de Guerra algum dia irão ser pagas pela Alemanha, que procura esquecer o passado, recordando-o profundamente: quando a Segunda Guerra Mundial acabou os Aliados estabeleceram administrações de ocupação na Áustria e na Alemanha. A Áustria definiu-se como estado neutro, não alinhado com qualquer bloco político. A Alemanha foi dividida em zonas de ocupação ocidentais e orientais controladas pelos Aliados Ocidentais e pela União Soviética, respectivamente. Na altura, a Alemanha perdeu um quarto dos seus territórios pré-guerra (1937); os territórios orientais: Silésia, Turíngia e a maior parte da Pomerânia foram integrados na Polónia; a Prússia Oriental foi dividida entre a Polónia e a URSS, seguida pela expulsão de 9 milhões de alemães dessas províncias, bem como de 3 milhões de alemães dos Sudetos (que incluía a Boémia, a Morávia e a Silésia) para a (então) Checoslováquia….

Na década de 1950, um em cada cinco habitantes da Alemanha Ocidental era um refugiado do leste. A URSS também assumiu as províncias polacas a leste da linha Curzon (das quais 2 milhões de polacos foram expulsos), o leste da Roménia, e parte do leste da Finlândia e três países Bálticos.

A História tem explicações. Não nos permite entender emocionalmente o que aconteceu no aeroporto de Istambul, onde assassinos voltaram a servir interesses que os transcendem, nem nos permite aceitar as figurinhas tristes que vêm à capa dos jornais celebrar as suas fraquezas com os seus eternos timbres autoritários.

E enquanto Merkel, os pobres Wolfgang e José Manuel DB, gritam Ich bin Deutsch! – Eu sou alemão! – ,  e outros ripostam com Eu sou turco!, como se cada desgraça fizesse uma atualização automática da anterior, uma nova leva de europeus descobre que a verdadeiro opção é sentir o lema: Eu sou humano! (E agir. Agir sob esse extraordinário desígnio que nos pode por no rumo certo).

 

Alexandre Honrado

Historiador

 

Publicado em 29 de Junho de 2016

 

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